Eu queria que você enxergasse esse grande mistério.
※ 12 de agosto de 2020 (8:40 AM) + comentários (1)
Desde pequena eu sonhava em ir a um show de rock. Só sonhava. Era um dos meus sonhos favoritos. Me imaginava numa multidão, vendo a banda que eu gostava no palco enquanto eu pulava animadamente no chão, a uma enorme distância daqueles a quem eu guardava uma admiração profunda - mas isso, é claro, é puro romancismo meu. Eu sonhava porquê os adultos a minha volta sempre contavam estórias sobre os muitos shows que eles foram ao longo de suas vidas. Meu pai, meu tio e os amigos deles. Eram tantos relatos que a minha imaginação ia longe e eu queria poder sentir o gostinho daquilo mas isso, é claro, não aconteceu. Ao menos não tão cedo quanto eu havia imaginado. Vejam bem, eu era a filha mais velha, mas nem por isso meus pais iriam abrir mão e me ajudar a realizar um sonho enquanto podiam muito bem manter a nossa família com comida na mesa e as contas em dia.Então eu ficava só nos sonhos mesmo. Vi bandas que eu adorava virem para a minha terrinha e nem por isso, poderia estar próxima deles. Triste, não é mesmo pessoal? E vou admitir aqui que, ser motivada desde nova a gostar de bandas de rock me foi mais sofrível do que empolgante. Era algo muito chato eu estar empolgada com uma música e não ter com quem compartilhar isso, e quando essas pessoas apareciam, elas sempre estavam a minha frente e nisso, todo o meu ânimo ia pras cucuias.
Mas como essa já tem se tornado uma catchphrase minha "a gente cresce, e as coisas das quais gostamos, mudam" e em meio a isso, eu achei o meu lugar. Encontrei as minhas bandas e artistas favoritos sozinha e estava muito feliz com isso, e mesmo assim, não deixava de conversar com meu pai quando ele colocava alguma de suas bandas para tocar. Era algo bom. Bom de verdade. Eu me sentia pertencente a algo e essa sensação era a melhor possível para se ser sentida.
E então eu entrei no mercado de trabalho.
E esse sonho estava enterrado a sete palmos astrais dentro de mim.
E meu tio apareceu em casa, numa noite aonde eu estava exausta mentalmente do meu dia de trabalho, dizendo que uma banda muito querida para ele e meu pai viria para o Brasil depois de vinte anos. Vinte anos. A última vez que esta banda havia vindo ao Brasil foi no ano em que eu nasci! Depois de vinte anos, eles já haviam encerrado as atividades da banda e decidiram fazer uma turnê mundial assim, bem do nada, como se fosse uma comemoração.
E para mim era uma comemoração.
Meu tio havia dito o valor dos ingressos. Eles estavam baratos demais, eu poderia pagar.
Eu queria pagar. Queria que meu pai fosse ao show.
Mas ele tinha trabalho, e me motivou a aproveitar a chance.
Meu tio não se importou de me levar junto na viagem, tudo o que eu tinha de fazer era conversar com o meu patrão, só que a minha insegurança cantou alto por aquele ser o meu primeiro ano trabalhando na loja e assim, o show era em abril (eu havia começado lá em janeiro).
Mas os ventos da mudança estavam a meu favor e depois de repensar o que tinha em mente ao menos dez vezes, e respirar profundamente outras vinte vezes, fiz o meu pedido. Quando perguntei pela segunda vez, pois dei uma travadinha na primeira, meu patrão aceitou de forma até que tranquila - o que eu não esperava - por algum motivo, ele entendia a minha situação e disse que não seria um grande problema, pois como o show era no fim de semana, eu faltar um dia não seria tão problemático para ele, constando que eu era a única funcionária que ele tinha.
Pois bem. Ingresso comprado, segurança garantida, dinheiro extra no bolso, minha mãe passaria a noite com a minha irmã. Foram duas semanas até o dia prometido.
Sábado, vinte e nove de abril de dois mil e dezessete.
Dizer que eu estava nervosa era o mínimo. Eu estava uma completa pilha de nervos. Pois mesmo tendo a segurança de que eu não estaria sozinha, eu tinha que achar a casa do meu tio e assim, essa parte foi chatinha pois o bonito não atendia o celular por miséria nenhuma! Agora imaginem eu tendo que ligar para a namorada dele e ela me explicar precisamente o número da casa onde eles moravam? Eu tive uma sorte danada dela ser um amor de pessoa e muito mais paciente do que ele, pois só assim achei a casa.
Para chegar lá e eles ainda estarem se arrumando.
Eu não iria sozinha com o meu tio, eu era tipo a extra da extra naquele grupo. Meu tio, a namorada dele, o filho dela, o meu primo e bem, eu.
E deixemos em off o perrengue que foi para minha pessoa deixar o look que usaria naquele dia separado. Pois aos olhos da minha irmã eu era um trapo e me vestia com trapos, então ela me emprestou as roupas dela para o grande dia - e eu levei uma bolsa com itens de emergência, just in case.
Segundo meu tio, nós iriamos de ônibus até uma rodoviária e de lá, um amigo dele nos levaria ao local do show. O Espaço das Américas. O lugar onde Tokio Hotel e Paramore tocaram quando vieram para o Brasil pela primeira vez - acho que só pro Tokio Hotel mesmo, Paramore veio mais vezes, minha amiga até foi no último show deles.
A viagem foi bem tranquila. Gente entrava a e saía do ônibus, enquanto eu estava sentada ao lado do meu primo escutando música pelos fones de ouvido - um detalhe engraçado é que todo mundo ali era caladão, então imagina o meu desconforto, nem consegui concentrar na leitura pois eu ainda estava nervosa. E esse nervosismo foi pro ápice quando chegamos no Jabaquara. Deus do céu! Quanta gente tinha naquele lugar! Meus olhos corriam por todos os lados enquanto eu lutava para não perder as pessoas com quem estava de vista.
Foi o sufoco da minha vida.
Então chega a nossa carona, e eu descubro que o bullying estúpido sobre eu escutar sertanejo que meu tio fez comigo durante anos só acontecia porquê esse amigo dele que nos deu carona, fazia o mesmo com ele e bem, no meio da minha viagem visual de pistas e carros pela janela do automóvel, chegamos ao nosso destino. O show começaria as nove da noite e não era nem duas da tarde direito e nós, eramos os primeiros da fila.
Um evento raro, segundo meu tio.
Mas eu acho que a gente só deu essa sorte (eu e meu primo no caso) pois a banda que veríamos não era realmente popular pelas más bocas, na verdade acho realmente difícil uma alma gritar um "uhúl" quando o nome Midnight Oil é citado numa roda. O que é triste, pois essa banda é ótima! E de forma muito resumida, o Midnight Oil é uma banda ativista da Austrália e suas músicas, por mais harmoniosas que sejam, sempre carregam palavras afiadas em nome da proteção ao meio ambiente e dos direitos do povo aborígene. E eu literalmente cresci escutando eles, logo imaginem aquele negócio de algo importante sendo passado de geração a geração rolando comigo.Eu ainda estava nervosa. A cada pessoa chegando, passando, meu nervosismo subia e descia de forma veloz e eu só conseguia apertar a minha bolsa contra o peito, enquanto olhava o tempo de São Paulo mudar e o sol que senti em Itanhém, ser substituído por um frio chato e uma chuva leve. Eu não sentia fome, sequer bebia a água que havia colocado na garrafa para o caso de uma emergência e apenas aceitei que eu estava numa pilha de nervos mesmo.
A noite chegou, as horas correram e nós pudemos entrar no local do show.
E caramba, que lugar! Eu só consigo me lembrar daquele lustre enorme no teto e da mesa de lembrancinhas e, enquanto as pessoas que me trouxeram se ocupavam com banheiros e bebidas, corri para as grades que separavam os pobres, dos ricos. O lugar ia aos poucos enchendo, enquanto detalhes no palco eram arrumados, e puxo da memória meu tio dizendo o quão rápida eu fui, pois tanto ele quando a namorada e o filho dela, estavam atrás de um mar de gente no momento em que eu e meu primo estávamos lá na frente.
Os minutos iam a passos de tartaruga, as luzes mudaram.
O show estava para começar.
O meu primeiro show.
Um show de rock!
E nesse momento especificamente, ao som de Blue Sky Mine eu percebo que eu nunca me importei em aprender as letras das músicas dessa banda! Eu ria feito uma boba, enquanto seguia o ritmo que me lembrava com a palma da mão, mas as palavras saiam completamente desconexas da minha boca pois eu nunca dei muita importância para as letras quando criança, e mesmo depois de grande e manjando dos inglês, essa noção escorreu pelos meus dedos feito areia. Então eu fiz o que sabia fazer de melhor, cantei o que eu sabia enquanto pulava feito uma cabrita!
Sem brincadeira, foi isso que eu fiz - e tenho quase certeza que os marmanjos que estavam perto de mim me olharam de canto de olho com cara de desprezo pela minha alma.
Mas eu estava feliz.
A música fluía por mim de uma forma incrível, do jeitinho que eu sonhava quando pequena, meus óculos estavam embaçados mas eu estava curtindo muito mais o som do que me importando com quem estava no palco - ainda mais porquê o vocalista do Midnight Oil é tipo, muito alto. Tão alto quanto os meninos do SHINee.
Então eu me lembrei do meu pai, e de como eu queria que ele estivesse ali comigo.
Foi na terceira música, uma das mais gostosas na minha opinião - Too Much Sunshine - que eu percebi que ele não poderia estar ali comigo, que ele não pode estar no último show deles e muito menos naquele, vinte anos depois. Eu me senti incrivelmente triste e comecei a chorar no momento em que os primeiros acordes de Redneck Wonderland soaram e palco ficou completamente vermelho, e detalhe que eu era louca por essa música, e ela é tão agressiva que eu nunca me imaginei chorando ao som dela! Eu tive até que tirar os óculos e só me acalmei em King of the Mountain mas ainda soltava uns soluços vez ou outra.Eu queria aproveitar aquele momento por ele, mas ainda mais por mim mesma, que sonhei por anos a fio ter aquele momento para mim.
E eu estava sozinha num monte de gente. Pulando, cantando, sorrindo feito uma idiota. Sozinha com o nervosismo já havia sido esquecido pelo meu sistema.
Eu estava apenas curtindo o meu momento.
E eu até entendi o quão felizes os caras da banda estavam em poder tocar mais uma vez no Brasil, quando eles deram uma pausa para conversar com o público.
E as músicas correram, as luzes mudaram de cor.
Power and the Passion.
Warakurma.
My Country.
Fortgoteen Years.
Eu sabia que algumas eu não conhecia mas eram poucas.
E o show acabou. Deveria passar das uma da manhã, eu só olharia no relógio mais tarde.
O ar faltava, eu devia estar vermelha e com um sorriso enorme no rosto.
As pessoas começaram a se mover e eu acho os bonitos que me trouxeram para o meu momento tão desejado.
Meu tio fez mais uma piada estúpida e tirou uma foto da gente - foto essa que eu acabei perdendo pois além de não registrado nada daquele momento, a câmera do meu celular antigo ficava horrível em lugares fechados.
Conforme andávamos, eu notava os copos de plástico pelo chão, meu tio era bem rápido.
Até que eu olho o estande de lembrancinhas e digo que vou comprar algo, a cara do meu tio parece um limão azedo mas digo que vou achar ele depois, pois eu tinha que levar algo daquela noite. Algo concreto para que eu acreditasse que aquilo não tinha sido só um sonho. A fila estava enorme mas eu já sabia o que levaria, e não seria algo para mim.
Comprei a maior camiseta que encontrei da turnê The Great Circle 2017 World Tour e levei para o meu pai. Ela foi cara para um senhor caramba, mas era melhor do que nada.
Do lado de fora, meu nervosismo quis me morder mais uma vez, mas eu mandei ele a merda enquanto observava o mar de gente a minha volta. Haveria uma carona, eu dormiria em São Paulo naquela noite e estava tudo bem, eu estava tão alto que não me importava com mais nada naquele momento.
Do lado de fora do carro eu notei que nunca mais voltaria aquele lugar sozinha, odeio lugares com gente demais.
As luzes da cidade ofuscavam as estrelas, tentei ligar para meu pai mas os malditos códigos de área ganharam de sete a zero comigo naquela noite. Paramos em um mercado. Eu não conseguia pensar em nada, não queria pensar em nada.
Quando chegamos a casa desse amigo do meu tio, que nos deu carona para cima e para baixo naquele lugar tão grande, que eu voltei ao normal. Comemos um lanche simples, fui ao banheiro. Naquela noite os jovens (constem eu, meu primo e o filho da namorada do meu tio) dormiríamos no mesmo quarto e, quando eu pensei que não dormiria por isso - afinal eu só dormi no mesmo cômodo que o meu primo quando ele tinha cinco anos. Apaguei completa e totalmente.
No dia seguinte tinha sol, eu me sentia ótima.
Quem diria que o amigo do meu tio seria tão mala sem alça quanto ele - mas a irmã dele era bacana, ela até me deu uma maquiagem completa de graça e assim, eu realmente não quero ser maquiada novamente na minha vida. Eu não funciono de maquiagem. Aquela foi a primeira e última vez que isso me aconteceu!
Seguido disso, voltamos ao Jabaquara. Até dei uma corridinha na banca de lá mas incrivelmente não havia novidade alguma naquele lugar. Meu tio tirou uma com a minha cara enquanto esperávamos pelo ônibus. Eu finalmente ganhei dos malditos códigos de área e falei com a minha irmã, avisando de que estava voltando para casa.
A viagem de volta foi tranquila, fiquei na parte mais alta do ônibus.
O sol estava lindo e quente, mas a maquiagem me incomodava muito.
Chegamos de noite.
Minha mãe elogiou a maquiagem, enquanto minha irmã veio cheia de críticas, como se ela soubesse do mundo melhor do que eu mesma.
Mas tirar aquela maquiagem foi um saco.
E como era antes das nove, consegui pegar meu pai em casa.
Consegui dar a camiseta a ele.
Ele ficou tão feliz que foi para o trabalho vestindo ela.
E eu estava muito contente comigo mesma naquele momento.
A última coisa que me lembro desse momento é de na segunda de manhã, enquanto limpava a calçada da loja, o Dias (cliente da loja, otaku, colegial que por acaso virou meu conhecido e assistiu Deadman Wonderland e Hellsing devido a minha recomendação) me apareceu incomodado por eu não ter ido trabalhar no sábado, e eu toda pimposa com a boca cheia de orgulho, disse que tinha ido a um show de rock.
Mas acho que coisas assim não deveriam ser ditas a clientes.
Enfim, aquele era o meu primeiro ano ali, né não?
- Para o caso que quererem uma review mais técnica do show, tem esse site aqui, que foi de onde me recordei da tracklist na ordem. E o título da postagem é um trecho de Earth and Sun and Moon, música título do meu álbum favorito da banda.
Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva de Agosto do Together, um projeto para unir a blogosfera! Para saber mais, clique aqui.
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Sinta-se bem vindo ao Doukyuusei, um clube de artes cibernético que de arte só tem o entusiasmo mesmo pois se encontra abarrotado de poesia, ruminações sobre a vida e universo, análises altamente emocionadas sobre títulos de momentos passados e romance barato para a graça de sua autora que gosta de passar o tempo livre dormindo e acumulando rascunhos no bloco de notas, tal como músicas velhas de CityPop na playlist.Seguimos de portas abertas e lugares vagos para os curiosos de plantão desde maio de 2015. ★

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quem reiste, sofre
quem se rende, cresce
o que você precisa aceitar para que a leveza
chegue a sua vida, qual ciclo encerrar para que sua alma
volte a sorrir,
quando você concorda com tudo como foi você permite
que o universo te surpreenda. é hora de aceitar,
agradecer e se abrir para o novo.
quem se rende, cresce
o que você precisa aceitar para que a leveza
chegue a sua vida, qual ciclo encerrar para que sua alma
volte a sorrir,
quando você concorda com tudo como foi você permite
que o universo te surpreenda. é hora de aceitar,
agradecer e se abrir para o novo.