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{ oneshot } Enquanto o sol se põe

※ 19 de dezembro de 2021 (8:50 PM) + comentários (0)
Sabe... pensando em retrospecto esse ano assim como o anterior, me foi muito proveitoso e valioso nos mais variados sentidos possíveis e incrivelmente, na maior parte de seus dias eu me pegava escrevendo, lendo ou pensando no que escrever. Sem brincadeira, minha cabeça dificilmente ficava vazia por muito tempo. Essa oneshot que estou para publicar por exemplo, me atormenta desde fevereiro e me acompanhou em muitos momentos como também foi a graça que me trouxe clareza no meu famigerado "hobby" e eu tive altas epifanias na criação e revisão desta belezinha - que surgiu a partir de um doujin - não é a minha obra prima mas foi a que mais me fez duvidar das minhas capacidades então imagino que essa introdução seja bem auto explicativa. Eu sofri. Horrorez. E caso leiam peço que estejam acomodados e confortáveis, pausem a leitura caso queiram... que eu vou estar ali no canto... chorando em posição fetal...

  • enquanto o sol se põe
  • izumo kamiki x renzo shima
  • ao no exorcist
  • 17.419 palavras
  • "A Terra do Pôr do Sol não era encontrada por qualquer pessoa. Somente aqueles que já estiveram ali outrora ou fossem destinados a estarem naquele lugar sabiam como chegar. Caminhando quinze dias e quinze noites pelo deserto até que avistassem o palácio escondido pela areia. Um palácio habitado por sombras e governado por uma princesa solitária"

O Espelho do Mundo era grande e refletia todos os lugares presentes nele. Em sua face brilhante podiam ser vistas pessoas de várias cores e vestimentas, assim como os lugares mais lindos que o mundo tinha. Ele era grande e assim como sua grandeza, a capacidade de refletir o mundo lhe trouxe poderes nunca antes descobertos, ninguém sabia ao certo o que aconteceria caso alguém encontrasse o espelho, muito menos sabiam de onde ele poderia estar.

O espelho do mundo era um mito, difundido pelas bocas das pessoas ao redor do mundo. Uma história perspicaz contada pelos adultos para suas crianças nas noites onde estas não conseguiam dormir por medo de terem algum sonho ruim. O mito do Espelho do Mundo era belo, acalmava qualquer coração amedrontado com seus cenários acolhedores e crescera a partir destas bocas que nem sequer sabiam do poder que suas palavras ao serem proferidas, continham de fato, sucedendo assim geração após geração. E um dia ele quebrou, se estilhaçou, mas ninguém realmente percebeu isso, sequer notou a diferença do antes para o depois. Como poderiam notar tal evento de impacto monumental se tratavam o Espelho do Mundo como um mito? E assim, de forma silenciosa e imperceptível, seus pedaços de diversos tamanhos e formas se espalharam, dando origem a um outro mundo. Um mundo divido pelas passagens do dia. Um mundo onde não existia o pôr do sol em mais de um lugar.

Ao menos era assim que contavam a história sobre a criação da Terra do Pôr do Sol, um lugar sempre banhado em tons de laranja e caramelo. Um reino isolado habitado por sombras e ordenado por uma princesa solitária.

A terra em que esta princesa chamada Izumo nascera sempre fora laranja e sempre houveram sombras por onde quer que ela estivesse. Estas sombras que caminhavam livremente pela terra cercada em areia viviam indiferentes a seus corpos, eram apenas essência em preto e forma, não podiam falar ou se expressarem de maneira verbal mas ainda assim interagiam entre si, coexistindo em sua própria realidade muda e tudo o que Izumo fazia sobre isso era andar a passos largos pelo grande palácio no meio do deserto cor de mel, observando tal convivência, não deixando de notar seus pequenos detalhes. As sombras entendiam o que ela dizia e de uma maneira curiosa, ela também conseguia compreendê-las logo, tudo o que era dito e não dito ficava subentendido por ambas as partes, tornando a hierarquia daquele recluso lugar algo único e raro.

Lhe fora contado que aquelas sombras pertenciam a pessoas como ela - de músculos ossos e sangue - mas por causa da quebra do Espelho suas sombras vagavam ali, esperando pelo momento de retornarem para junto de seus corpos. Ao menos uma parte da essência delas e essa parte era algo que a intrigava. Poderiam realmente existir outros como ela, quando tudo o que ela conhecia se resumia a areia ao redor do palácio onde sempre viveu e as sombras que sempre estiveram ao lado dela?

Quando esse pensamento voltava á tona ela lembrava de pequenos resquícios - de rostos - de visitantes que outrora estiveram ali mas que, assim como o vento levava a areia de um lugar a outro, ela acabava por esquecer tomando para si a ideia de que nunca tivera a oportunidade de conhecer outro como ela.

A princesa costumava se isolar em grande parte de seu tempo. Os deveres que tinha enquanto nobre sendo tão breves quanto simples quando tudo o que lhe era requisitado era cuidar do palácio e de suas sombras - o que ela fazia com uma primazia sem igual - e nos poucos momentos do dia em que saía de seus aposentos, havia uma sombra que a seguia por onde quer que ela estivesse. Não importava por onde a princesa andasse. Fosse pelos amplos jardins ornamentais que ficavam ao final do palácio ou abaixo do sol quente do lado de fora, aquela sombra sempre estaria a espreita, como se fosse sua própria sombra.

Sozinha em sua própria companhia, a princesa desenvolvera uma personalidade volátil e temperamental que mostrava sua pior face sempre que essa sombra aparecia pelas dunas da Terra do Pôr do Sol, parecendo estar testando a paciência da jovem, que ralhava com a sombra mesmo quando tudo o que esta fazia era sentar-se ao seu lado pacientemente. Esperando ou só aparentando esperar por algo que nunca viera de fato enquanto Izumo, limitada a seu próprio conhecimento, não conseguia distinguir quem essa sombra poderia ser. Fosse um homem velho ou uma garota jovem, talvez um rapaz próximo a idade dela. E em verdade, ela nunca se importara em saber o quê ou quem seriam as sombras em seu reino já que tal capacidade não era estritamente necessária ali, mas aquela em especial a incomodava dada a proximidade que tinham. Por mais ambígua que fosse.

As vezes ela chorava, lágrimas silenciosas desciam por seu rosto. E lá estava a sombra ao seu lado.

E mesmo quando a princesa resmungava memórias que não sabia serem as dela de fato, a sombra permanecia ao seu lado, tentando confortá-la de alguma maneira. Como se sua mera presença pudesse fazer algum bem a ela no estado no qual se encontrava nesses silenciosos e angustiantes momentos. E em dado ponto ela passara a ansiar conhecer quem aquela sombra poderia ser. Se perguntando se esse alguém também desejaria conhecê-la para assim deixar de sentir-se solitária, deixar de ser tão solitária. Pois em algum momento perdido nas areias do tempo, a princesa se lembrava de que seu nome não era incompleto, de que pertencera a uma família e de que sua solitude nem sempre fora como aquela. Tão física quanto aquela. Que o seu lugar naquela terra nem sempre fora dela - mas ali estava.

A verdade era que poucos conheciam o caminho até a Terra do Pôr do Sol. Muitos tentaram em vão encontrar a terra das sombras e reconquistar seu brilho perdido mas acabavam por se perder em peregrinação pelo deserto.

Até que enquanto recostada sobre o largo batente de uma das janelas de seus aposentos, tentando adormecer em meio a temperatura aconchegante do entardecer, a princesa vira algo se mover por entre as dunas lhe chamando a atenção de imediato e varrendo qualquer resquício de sono ainda presente em seu consciente. A areia quente e brilhante poderia enganar a olhos inexperientes, mas sua vida era aquele lugar e ela conhecia seu reino como as linhas da palma de sua mão. Sabia exatamente quando o vento mudava e dunas reapareciam a leste do palácio e aquele corpo se movendo por entre elas não era uma miragem do deserto, não poderia ser uma miragem. Não quando partículas de areia dançavam a luz do sol poente e o corpo permanecia em seu caminho sem se desfazer, saltando em contentamento ao avistar o palácio.

Aquilo trouxe um sorriso ao rosto da jovem princesa, assim como uma inquietude de que algo fora do comum estava prestes a acontecer.

Seu corpo se eriçara por debaixo do longo kaftan branco e vermelho, decorado por bordados e pedrinhas brilhantes que ressaltavam a beleza da peça. Seus pés se moveram antes que ela se desse conta e a percepção de que corria pelos corredores largos, sustentados por grandes vigas circulares só fora notada dado ao peso de seus brincos que se moviam junto a seu corpo, isso e o contato insistente do ornamento que prendia o final de sua longa trança, que ia e vinha de encontro com o centro de seu quadril. A temperatura em nada influenciara seu estado de euforia enquanto corria por entre as sombras que se moviam em direção a entrada principal em clara comoção, até que seu corpo tivera seus movimentos interrompidos de supetão. Ela certamente teria caído no chão se não fosse por aquela sombra que sempre a seguia e que segurava seu pulso não tendo a menor intenção de soltá-lo naquele momento.

Em seus pensamentos ela desconhecia do motivo para a sombra agir tão incisivamente quando sempre fora gentil a presença dela, porém mal conseguira formular algo para dizer naquele momento pois havia alguém além da sombra para repousar sua atenção sobre.

Outro como ela.

Finalmente, alguém como ela!

E o tempo parecera correr de forma lenta até que o encontro entre ela e o completo estranho acontecesse. Foram algumas piscadas de olho vindas dela, três ou quatro tentativas de se soltar sendo todas em vão e punhados de areia correndo pelo piso de mármore branco. Até que as sombras dessem espaço para aquele que chegara passar e ir de encontro a princesa daquela terra. Seu rosto estava coberto por um lenço longo e escuro enrolado por sua cabeça, deixando apenas que seus olhos estivessem á mostra, enquanto o conjunto pesado de trajes era batido para que a areia ali grudada pudesse ir de encontro aos punhados de grãos dispostos sobre o piso. A expectativa deixara o corpo de Izumo estático. Fora questão de um instante, um lento e lânguido instante até que ela notasse a ausência da pressão insistente em seu pulso - a sombra que a segurava deixara de existir no momento em que o viajante revelara seu rosto por completo - seus olhos mau podendo notar quando aquela mesma sombra se desmaterializara, correndo pelo piso até os pés do completo estranho. E quem poderia julgá-la por tamanha falta de atenção quando eram os olhos dele que roubaram qualquer senso funcional adjacente que ela ainda detinha naquele momento?

A íris dos olhos dele eram claras, mais claras que a cor de seus cabelos mas semelhantes em algum aspecto que ela falhava em descrever para si mesma, já que nunca havia se deparado com detalhes como aqueles, com cores como aquelas, que perdiam em atenção quando ele sorria presunçosamente ao vê-la resultando em um conjunto de detalhes faciais nunca antes visto pela princesa.

As sombras começaram a se movimentar procurando pela melhor forma de atender ao viajante, que parecia exausto pela temperatura debaixo de suas vestes escuras.

Aparentemente ele também era um príncipe, por mais difícil que fosse de se acreditar nisso dada a forma com que ele agia e se portava. Vindo de uma terra que ela não imaginava que existisse de fato mas lembrava de ter lido sobre nos pergaminhos que ficavam abaixo do palácio, escondidos da alta temperatura. Entretanto ela não imaginava poder encontrar um nativo da Terra da Noite andando pelo deserto tão cedo, talvez fosse por isso que ele usasse roupas tão escuras e pesadas, era provável que a ausência de luz fizesse daquele um lugar frio, mas a princesa desconhecia algo que não fosse o calor de sua terra.

E ele estava ali a procura dela.

Dissera que um de seus irmãos já estivera ali antes e ele quisera seguir seus passos, pois a jovem que ele via em seus sonhos era muito semelhante a princesa que ele descrevera em seu diário de viagem. E naquele momento Izumo certamente deveria estar ainda imersa em euforia pela presença do outro, só a ideia de poder conversar com alguém, um príncipe assim como ela, era algo inédito, fora de série- ao menos deveria ser se seus pensamentos não estivessem tão nublados por algo que ele dissera. Outro príncipe. Ela não se recordava dele muito menos se lembrava de seu rosto e algo não parecia certo, seguro, naquela lembrança que ela deveria ter mantido.

Tão pouco nos sonhos que ele mencionara...

Seriam estes sonhos como os que ela tinha quando se lembrava de um passado distante que ela não sabia, não tinha noção, se realmente era o dela?

E a maneira como ele a olhava era tão incômoda... ela nunca sentira arrepios vivendo em um lugar tão quente, mas naquele momento imaginava como seria ter uma brisa gélida correndo por seu corpo, dada a maneira como aqueles olhos a observavam. Talvez ela devesse retribuir o gesto, mas sempre que seus olhares se encontravam ele sorria largamente, fechando os olhos e coçando a nuca.

Ou talvez fosse ela quem o deixasse desconfortável naquele momento.

Era algo tão novo e frágil que a princesa não sabia como agir ou se portar diante da presença de seu semelhante, mesmo sendo ela quem representasse aquele lugar inalcançável e suas sombras. Mesmo sendo ela quem devesse representar os interesses de todos ali presentes e a todos os efeitos, fora o que a jovem princesa tentara a primeira vista mas que com o passar da troca de palavras entre os dois, ela notara sua falta de preparo para tamanho momento e fora vendo as sombras agindo por conta própria que algo maior se solidificara em sua mente, algo que ela em sua ignorância falhara em perceber. Mesmo enquanto princesa, ela não precisava cuidar de tudo sozinha. Talvez fosse por isso que ela falhara em se lembrar do irmão do príncipe. Era preferível para ela esquecer os momentos em que se sentira envergonhada devido a inabilidade em socializar com seus semelhantes.

E conforme as sombras iam e vinham, auxiliando o viajante com seus pertences e trajes, Izumo conseguira pensar em uma maneira de agir diante de seu dilema atual. Mesmo que grande parte de suas dúvidas fossem respondidas com as mesmas palavras. O mesmo "eu procurava por você, aquela que vejo em meus sonhos" só que dito de maneiras diferentes e ao menos com isso, ela conseguira perceber algo que a preocupara no início.

O príncipe não estava interessado em nada naquela terra. Não buscava por nada que não fosse ela e isso, isso era algo que a jovem não esperava. Não houve alguém que estivesse interessado pela princesa quando chegava aos arredores da Terra do Pôr do Sol. Ninguém exceto por esse viajante, esse príncipe, que lhe contara com certa relutância sobre as viagens do irmão mais velho até aquele lugar específico quando ela o questionara dos meios para que ele houvesse chegado até ali.

Ele não lhe dirigira o olhar enquanto contava o que o trouxera até aquele momento onde estavam.

"Meu irmão sempre teve um senso muito forte pela família e queria fazer do impossível, possível para que ela se mantivesse íntegra diante das outras. Foi por isso que ele decidiu sair em busca de todo tipo de conhecimento que fosse valioso para a família, indo de terra em terra ele ouviu histórias sobre a Terra do Pôr do Sol e decidiu que aquela seria sua última viagem pelo deserto.

Os relatos dele sobre esse destino especificamente eram mais detalhados do que os outros, mas ninguém em casa pareceu se importar muito com isso. Eu não me importei com isso, não tenho menor interesse em continuar com a linhagem. Ao menos até os sonhos começarem"

Seu tom de voz deixara de transmitir desinteresse nesse momento, observando uma das muitas vistas do deserto enquanto se perdia em suas próprias lembranças.

"Nesses sonhos tudo o que eu conseguia ver eram você e vultos por toda parte, mas você sempre existia. O palácio e o deserto nessa cor, eram todos o mesmo. Todas as vezes que eu sonhava"

Então ele olhara para ela.

— Contei desses sonhos para um dos meus irmãos mais velhos e ele trouxe os diários de viagem desse nosso irmão, que foram quase impossíveis de entender, a letra dele era terrível. Mas a maneira como ele descreveu tudo o que existe aqui. Você principalmente, eram exatamente o que eu via quando sonhava. Aí saí de casa e vim para aqui, simples assim.

O sorriso faceiro que ele tinha ao terminar de falar a incomodava.

Não era tão simples como ele dizia.

Ninguém cruzava o deserto e chegava até ali tão facilmente.

— E onde está esse seu irmão?

— Ele morreu.

Izumo desconhecia aquela palavra.

— Morreu?

— É, morreu. Deixou esse mundo. Enterrado a sete palmos ou algo assim, aqui ninguém morre?

A naturalidade com a qual ele dissera tais palavras a fizera se perguntar o que realmente seria morrer. Apenas de pronunciar aquela palavra especificamente trouxera á tona uma noção adormecida de dentro dela a dizendo que não poderia ser tão simples e fácil como ele o fazia parecer. Deixar esse mundo. Como uma vida poderia deixar de existir e alguém estar tão indiferente a isso? Não parecia certo e muito menos algo pelo qual pouco se importar, ali ela nunca vira algo assim a não ser-

— As sombras não morrem, as vezes algumas saem rumo ao deserto e não voltam mais. Quando isso acontece todas as outras sombras se reúnem na fonte central, mas é algo raro, que eu me lembre vi isso acontecer apenas duas vezes.

— Então você é o quê, exatamente? Uma imortal ou coisa do tipo?

— Imortal?

— Como você fala tão bem e não conhece a morte?

Aquela conversa não estava indo a lugar algum e conhecer aquelas palavras muito menos. Izumo conseguia sentir sua cabeça pulsar de uma forma nada agradável só de pensar sobre o que saía da boca do príncipe e não conseguia entender por completo, se questionando mentalmente se todos aqueles como ela seriam tão incômodos como ele era. Mas enquanto princesa diante de um viajante, ela deveria manter a compostura, não poderia se deixar levar pelo momento ou por suas dores de cabeça.

— Infelizmente não sei como responder essas perguntas.

— E a quanto tempo você está aqui?

— Eu também não sei como responder essa pergunta, só sei que tudo o que me lembro e conheço se resume ao palácio e aos limites da Terra do Pôr do Sol.

E por algum motivo, o príncipe começara a rir.

Um riso tão dissonante á conversa que ela não entendera o motivo, a fazendo se esquecer momentaneamente do desconforto que todas as outras perguntas que ele a fizera haviam lhe causado porém tamanho revés não durara muito, quando seus ouvidos se atentaram ao escutar um "como fui gostar de alguém assim?" sendo dito entre os risos soltos. E mesmo sem entender o que aquelas palavras poderiam dizer quando juntas, voltou a conversa com algo que lhe chamara a atenção. Era melhor que ela tomasse o rumo daquela conversa antes que ele recuperasse o fôlego.

— Quantos irmãos você tem?

Os olhos do jovem se abriram um pouco mais que o normal dando total atenção a pergunta, para depois pousarem sobre seus dedos da mão, que enumeravam os membros de sua família em cada um deles. Foram todos os dedos de uma, com mais dois da outra mão.

— Comigo são seis. Tenho duas irmãs e quatro irmãos, tirando o que morreu.

— E acha que ninguém vai dar falta de você?

Ele deu de ombros.

— Não é como se eles se importassem comigo, eu sou só o filho mais novo. Só isso. Ninguém vai notar se eu não voltar.

Um suspiro vencido deixara os lábios da princesa, tentando com isso aliviar a tensão que mais aquelas palavras lhe traziam. Dizer aquilo parecia errado, mas ela não encontrava em si motivos o suficiente para conseguir discordar. Viver sozinha no deserto deveria ter feito isso com seu coração. Desconhecer palavras difíceis de engolir, esquecer suas frustrações e vergonhas. Tudo parecia sumir como as dunas que iam e vinham facilmente a vontade do vento.

Como se ela houvesse pedido, com todas as forças de seu ser, para que isso fosse realmente possível.

A presença do príncipe errante ali naquele momento, a observando da mesma maneira de quando se encontraram pela primeira vez, com o mesmo brilho distinto nos olhos, a fizera contemplar se haveria algum motivo maior para os dois terem se encontrado. Nenhum viajante que visitava a Terra do Pôr do Sol ficava por mais que o necessário nem mesmo aqueles que apenas passavam por ela, nenhum viajante interagia com a princesa ou lhe fizera tantas perguntas quanto este mas principalmente, nenhum viajante a fizera se questionar tantas vezes seguidas sobre si mesma.

Era estranho demais todos esses pontos se ligarem especialmente a ele.

Mas mais estranho do que toda essa incrível sequência de adversidades seguidas era como Izumo conseguia se empatizar pelas últimas palavras que ele acabara de dizer.

Ou mais estranho ainda era a veemência com a qual ele dizia que queria ficar ao lado dela e todo o interesse que nutria pela princesa que vira em seus sonhos, no caso ela.

— Ninguém vai se importar, não é mesmo? - murmurou a jovem sem nem perceber que dissera seus pensamentos em voz alta.

O deserto não tinha piedade com ninguém, então se ele estava ali não fora por mero acaso. Havia algum mérito dele ali também.


A sombra a qual se acostumara pela companhia deixara de segui-la ultimamente, notara a princesa, mesmo que a contragosto sentisse falta daquela existência sem som e sem presença alguma. Era uma noção que ia para além do tato que seu corpo sentia ao passar por algo fisicamente, era um vestígio que parecia ressoar por todo o seu ser quando aquela costumeira sombra estava por perto e que ela deixara de sentir ultimamente. O que lhe era estranho na verdade era assimilar aquele vestígio tão característico ao príncipe errante, que parecera tomar o posto que aquela sombra deixara vago mas que ela não se preocupara em pensar sobre o motivo disso. Também como poderia, quando a presença insistente dele ocupava a outra metade de seus pensamentos que não estavam atentos aos seus deveres comuns? Ela ainda não conseguia acreditar, dirá entender o que o levara a sempre, sempre estar esperando por ela do lado de fora de seus aposentos enquanto ela tentava tirar uma de suas sestas - chegando ao ponto de ignorar o cômodo que lhe fora indicado pelas sombras.

Poderia bem ser um gesto infatigável da parte dele, para ele, mas aos olhos dela parecia com um zelo desmedido sobre ela. Com preocupações desnecessárias demais quando vindas de um estranho que estava por deixar de merecer tão descrição dada a sua insistente presença - e ela já perdera a noção de quantas vezes dissera a ele para não perguntar mais se ela já havia se alimentado, francamente - pois não importava realmente onde ela estivesse, ele estaria em seu encalço com muito a se dizer sobre o que quer que ela estivesse fazendo. Mesmo que seu destino fosse estar metros abaixo do palácio, descendo por uma longa escada em caracol, dentre pergaminhos enfileirados e ordenados em estantes de areia dura e gelada sem um fim realmente. Aquele espaço em especial sempre pareceu ser mais vasto do que de fato se mostrava. A estrutura ali sendo mais antiga que o próprio palácio, mesmo que essa fosse somente uma impressão tida por ela já que nem sempre conseguia suas respostas ali.

Foram as sombras mais velhas que lhe indicaram aquele lugar, quando ela já havia lido todos os resquícios de livros que existiam na sala que dava de entrada para aquele lugar, que carecia de um nome. E se os livros em cima já eram antigos e desgastados, quase sem letras dirá palavras, exigindo um grande esforço da parte dela para entendê-los propriamente, ela não imaginava que os pergaminhos que existiam abaixo seriam ainda mais difíceis de serem compreendidos. Nenhuma sombra se atrevia a descer até ali e somente quando ela fora fundo o suficiente entendera o porque, aquele era um lugar pouco iluminado para que uma sombra pudesse existir sem desaparecer imersa em sua própria essência, uma maior que a sua própria. 

Quando queria sossego daquela sombra era para baixo do palácio que ela procurava ir mas, infelizmente, o príncipe parecia ser uma exceção a regra quando mostrara genuíno interesse pelos poucos livros que ainda sobreviviam a temperatura que o sol tardio emitia incessantemente.

A princesa parecia desgostosa em perder seu último refúgio dentro do palácio.

O príncipe por outro lado, parecia contente o suficiente só de poder estar diante da presença dela.

E era um sentimento que, segundo ele, deveria ser renovado sempre que seus olhos se abriam.

Ninguém ali tiraria dele o deleite de poder ver seus sonhos sendo reais.

Nem mesmo ela.

E em nenhum momento ele vira Izumo chorar.

— Renzo, pare de me seguir.

Pelo contrário, ela parecia bem mais irritadiça em tê-lo por perto.

— Mas você disse que ia me mostrar algo sobre a Terra da Noite.

— Como se você se importasse com isso.

— Eu me importo com o que você se importa.

E depois que ambos descobriram seus respectivos nomes, a descrição ao tratarem um do outro deixara de ser tão rígida e pausada, com muitos passos em falso revestidos em resistência vindos dela e uma insistência corajosa e impertinente do lado dele, como se a linha que os dividisse não houvesse sido apenas cruzada como também apagada avidamente com a sola dos pés do jovem príncipe.

Mesmo que Izumo detestasse ser chamada pelo nome, e ela só tivera plena noção disso ouvindo ele pronuncia-lo silaba após silaba. Como se fosse algo além do novo - especial - fora assim que ela se lembrara do irmão mais velho de Renzo - Takezo, ela descobrira depois de muita insistência - que conseguira ser tão inconveniente quanto ele e que nunca mencionara ter sido um príncipe também. Ele apenas viera a olhara como ela se acostumara a olhar os viajantes que passavam por sua terra, observara o palácio e seguira adiante em seu caminho sem nem olhar para trás. Sem muitas palavras.

Nunca que ela imaginava conhecer outros da família dele e aqui estava ela, procurando por uma forma de esquecer essas memórias, torcendo para que também pudesse deixar de lembrar do rosto de Renzo quando este fosse embora.

Se ele fosse embora.

— Era isso que você queria me mostrar Izumo?

Ele olhava por cima de ombro da princesa, procurando por algo ali que lhe fizesse sentido, visto que ter descido até lá embaixo só fora suficiente para trazer-lhe a sensação de ter voltado para sua terra natal, isso se não fosse pela certeza de que ele estava muito, muito distante de casa. Enquanto ela tinha seus dedos deslizando sob um pergaminho antigo disposto sobre um grande e largo pedaço de mármore sem brilho algum, completamente alheia as palavras dele. Os escritos não tinham forma específica. Eram desenhos, as vezes runas, algumas letras soltas e diferentes umas das outras. Todos juntos misturados e mudando sua forma e ordem sempre que Izumo pegava algum dos pergaminhos dispostos para ler. Mesmo memorizando lugar e partícula especificamente, eles sempre mudavam, como se tentassem persuadi-la, confundindo seus sentidos. Levara tempo até que ela descobrisse o que eles significavam de fato. Existia uma forte noção dentro dela que sabia, sabia exatamente que se ela mexesse seus dedos sobre o papel velho da maneira correta, ela encontraria o que procurava - fora assim que descobrira a existência de outras terras além daquela em que estava e vivia desde que conseguia se lembrar. A Terra da Noite sendo sua primeira. Por viver em um lugar sempre iluminado, ela se perguntava como seria viver sem luz alguma.

E mesmo ali, embaixo do palácio sendo o lugar mais desprovido de claridade que ela já houvesse estado, ainda existia a luz do sol poente, seu laranja caramelado se dispondo por entre pergaminhos e areia gelada formando pequenos focos de luz. Como aquele onde ela sempre lia, ou apenas tentava com muita intensidade compreender o que seu olhos viam.

Trazê-lo até aquele lugar fora um impulso desmedido da parte dela mas já que estavam ali, nada mais justo do que sanar mais uma de suas dúvidas que em outro momento seria apenas dita para o eco que ressoava e voltava para ela sem nenhuma resposta.

A princesa apontara para uma linha longa que dizia "não existe luz naquele lugar e seus habitantes desconhecem como é viver sob o grande e esplendoroso sol, por isso vivem de criar sua própria luz" e voltara sua atenção para Renzo que tomado pela curiosidade deixara de se atentar a presença dela, buscando ler o que havia de tão importante ali e que diferente da jovem princesa, conseguia entender com perfeição todas as outras palavras e frases que estas formavam, além daquelas indicadas pelos dedos dela. Mas se atentando a eles, seus olhos notaram duas frases que pareciam fazer algum sentido quando relacionadas a Terra da Noite.

                                                           "Não existe luz"

                                                                                  "Criar sua própria luz"

E que francamente, estando em um lugar que tanto o lembrara de sua terra natal mesmo que este lugar se encontrasse metros abaixo de um deserto escaldante e brilhante, parecia ser uma grande ironia da parte dela não ter conseguido ligar os pontos e coincidências que aquelas palavras traziam ao subsolo do palácio onde ela dissera tantas vezes viver desde que conseguia se lembrar. Ele tivera que se segurar para não demonstrar o divertimento que sentira ao notar com isso outro aspecto dela que não se assentava tão facilmente quando comparado a toda personalidade que ela já houvera demonstrado a ele com tamanha veemência até aquele momento.

— É só isso? Você quer saber se é verdade que a Terra da Noite é um breu?

Ela afirmou com a cabeça, séria.

Ele sentiu que sorria, mas não tinha certeza sobre isso.

Então, tomado por uma epifania, Renzo torcera para que ela não deixasse de surpreendê-lo dali em diante. Se é ela que ela já não se houvesse provado capaz de tal.

— E eu pensando que fosse algo mais interessante, você é estranha Izumo, mas é verdade. O comércio da Terra da Noite só existe por causa das lanternas, que são vendidas para os viajantes não se perderem ao passarem por lá. Mas não é só isso, existem as estrelas também! A gente não vive literalmente no escuro.

Com os ouvidos apurados, a princesa se atentara as palavras que desconhecia e estava pronta para perguntar sobre a primeira delas, se não fosse pela última.

— Estrelas?

Naquele momento qualquer sentimento negativo que pudesse transparecer pelo rosto de Izumo graças a presença dele fora substituído pela curiosidade, expressado através do brilho incomum em seus olhos e as sobrancelhas que mesmo sendo naturalmente ralas, se arqueavam em surpresa.

Aquele sentimento ficava bem nela. Bem melhor do que suas tão peculiares nuances enfezadas.

— Tudo o que você conhece é esse lugar, não é mesmo? Estrelas são pontinhos brilhantes no céu, como se fossem o sol mas sem calor e bem menores do que ele. Elas não iluminam muito também mas são muito bonitas, como você.

— Eu sou uma estrela?

— Isso foi um elogio Izumo e você sabe disso.

— Então como é uma estrela?

Renzo coçou o topo da cabeça em pensamento, olhando o pergaminho e não encontrando algo nele que o ajudasse a explicar precisamente o que seria uma estrela - e talvez os melhores elogios fossem os convencionais, dizer que ela era tão bonita quanto uma estrela fora uma péssima ideia. Definitivamente.

— Estrelas não tem forma, elas só brilham.

— Então eu só brilho?

Mas estava claro o quão difícil Izumo conseguia ser, não obstante em acabar com qualquer fluxo que ele conseguia colocar em uma conversa. Como aquela que estavam tendo.

— Por que você tem que ser tão complicada?

Dada a convivência que vinham dividindo até ali ela descobrira que detestava aquela palavra que tão pouco adicionava quanto deduzia sobre ela e Renzo, agraciado por sua noção infeliz acabara adotando por costume dizê-la como sendo alguém complicada. Complicado era ele que viera até ali clamando por ela, enfrentando um clima totalmente diferente do que estava acostumado apenas com esse motivo em mente e dizendo que não iria a nenhum outro lugar em que ela não estivesse, palavras essas que passaram a enervá-la cada vez que eram repetidas, tanto que se a cada vez que Renzo se perdesse em seu monólogo do quanto ela significava para ele um grão de areia fosse adicionado em um dos jarros usados para servir água ali no palácio, naquele momento o jarro certamente estaria em vias de transbordar.

Afinal por que insistir tanto nela, o que ele ganharia com isso?

Izumo sempre fora uma pessoa solitária assim como sempre convivera com sombras, enquanto princesa destas seu mundo se resumia a apenas isso. Assim como em seus momentos mais vis enquanto princesa, sempre se perguntara como seria poder conviver com outros como ela, se resumindo a imaginar tamanha realidade e ali estava ele, aquele príncipe imbecil querendo abrir mão de tudo o que tinha - da família, da convivência, das conversas, dos pequenos hábitos tudo por causa dela.

Tudo por causa de seus ditos sonhos.

Aqueles malditos sonhos.

— Por que você não vai embora então?

— Eu não vou embora sem você.

— Então você está disposto a sacrificar tudo o que tem em sua terra natal por minha causa?

O olhar dela não era mais curioso todo o seu brilho perdido, parecia triste frustrado até, confuso e tantas outras palavras juntas que ele carecia em como descrever por estar perdido demais em sua própria insatisfação.

— O que eu tenho que fazer para você entender isso de um vez por todas?!

— Por que você tem que ser tão imbecil? Seus sonhos e o diário do seu irmão te trouxeram até aqui, mas você não pode ficar aqui, eu sou a única pessoa que pode existir aqui Renzo. Desista dessa ideia, volte para a Terra da Noite e me deixe em paz.

— Você pode vir comigo se quiser Izumo. Assim você pode ver as estrelas.

Como ele conseguia ser tão relaxado a ponto de reduzir o todo ao redor dela daquele jeito?

Apenas como Renzo conseguira tal capacidade de fazer algo tão grandioso parecer tão ínfimo?

Mesmo quando ela não poderia atender a suas expectativas da maneira esperada pois ela não era como ele. Ela não podia deixar seu posto naquela terra quando bem quisesse.

— Eu não quero ver estrelas porque tudo o que eu preciso está aqui. Aqui é o meu lugar e você tem que ir embora!

— E eu não saio daqui sem você!

— Isso é ridículo.

Realmente, aquilo acabara por se tornar ridículo. Ele com certeza teria rido da situação se não estivesse envolvido na mesma.

Seus sonhos o trouxeram aquela terra e desde que vira Izumo, mesmo que a princípio essa parecesse ser apenas um fruto de seu subconsciente altamente criativo, se repetir noite após noite e a cada vez que ele fechasse seus olhos com expressões que migravam da completa apatia para uma tristeza que parecia não ter fim, ele decidira que um dia a conheceria e assim saberia se seus sentimentos por aquela estranha sem nome realmente valiam a pena serem cultivados e tratados com tamanho esmero.

Quando a estranha se tornara princesa ele se sentira muito próximo das estrelas, em um deleite que ele mesmo nunca tivera a chance de presenciar, dirá sentir. Ela existia e era linda. Tão linda quanto em seus sonhos, mesmo que suas expectativas caíssem por terra sempre que ela abrisse a boca para lhe dizer algo. A princesa realmente levava seu posto a sério e isso a fazia ser alguém irredutível aos olhos dele, mesmo que esses detalhes apenas somassem aos sentimentos que ele já vinha nutrindo por ela. Desde os primeiros sonhos que tivera com a princesa uma noção amiúde e intensa vinda de seu interior lhe dizia que ela era alguém importante - especial até - alguém que não deveria ser esquecida tão facilmente, por mais que com suas palavras ela apenas o empurrasse para longe ao invés de trazê-lo para perto.

A princesa sempre fora distante em seus sonhos, assim como era pessoalmente.

E quando a princesa enfim se tornara Izumo aquilo que lhe faltava estava completo, ao menos quase completo. Pelo menos saber quem a misteriosa princesa era lhe trouxe a sensação de proximidade que tanto desejava ter dela, isso sim estava completo, o problema maior era a insistência dela em não querer enxergar isso.

Izumo interagia apenas com sombras afinal.

— Ridículo é você ser a princesa de uma terra onde apenas você existe, Izumo. Ninguém aqui vai te julgar caso você vá embora. As sombras sabem se virar sozinhas, elas não precisam de você. Então me diga por que você insiste em permanecer aqui?

— Eu não tenho para onde ir.

Uma mentira. Ela só não sabia como respondê-lo devidamente, já que ele sabia como pegá-la desprevenida mesmo sem perceber.

— Você tem a mim, não é o suficiente?

— Mas eu nem te conheço direito, como posso confiar em você?

Outra mentira mas não uma mentira completa. Ela já o conhecia o suficiente para saber quem ele era, mas não do que ele poderia ser capaz e somente isso não era o suficiente para que ela deixasse tudo aquilo que lhe fora como regra até então e segui-lo para onde quer que ele fosse.

— Se você precisa de confiança eu faço o que você quiser para te convencer de que eu valho a pena!

— Eu não quero confiar em você, eu quero que você vá embora!

Ao menos isso era verdade. Ela não gostava nem um pouco de toda a mudança que Renzo trouxera consigo para sua terra tranquila e constante, onde o que mudava eram apenas as dunas de areia do lado de fora do palácio. Mas ele permanecia não obstante diante do rebuliço que causara dentro da cabeça dela.

— Então eu não vou embora enquanto não fizer você mudar de ideia!

Uma aposta desesperada da parte dele visto que dizer aquilo poderia fazer com que ela aparentasse algo que não sentia verdadeiramente, mas ele estava desesperado, tão desesperado que percebera cedo o suficiente que ela pouco se atentara a suas palavras imersa em pequenos murmúrios que ele pouco conseguia entender.

Ela era tão pequena se comparada a ele, mal chegava a altura de seu ombro.

E as roupas que vestia eram sempre tão bonitas e brilhantes que mesmo a pouca luz, estando metros abaixo do palácio ela continuava bela e etérea.

Uma princesa de fato.

Mas havia algo além dela brilhando ali e não eram as luzes do entardecer, que de forma curiosa chegavam até ao subsolo onde estavam. Era algo mais ao fundo daquele monte de areia e pergaminhos estranhos, que se embaralhavam em meio aos próprios registros e pelo o que ele se lembrava, Takezo nunca havia chegado até ali. Izumo nunca o levara até ali embaixo porque ele não tivera esse tipo de interesse. Desde o começo de seu diário de viagem seu irmão não quisera saber quem a princesa era, muito menos o que ela poderia vir a oferecer. Detalhe esse que também fugia dos motivos da viagem dele para a Terra do Pôr do Sol, visto a quantidade de conhecimento que ela escondia e ele nem se dera a chance de aproveitar e pensando bem, era ótimo que seu irmão mais velho nunca tivesse demonstrado real interesse em Izumo.

Mesmo que se não fosse por Takezo, ele tão pouco tivesse a chance de conhecê-la verdadeiramente.

O brilho vinha da ala distante onde a luz não chegava de forma a iluminar o espaço, parecendo e muito com o brilho de uma estrela da Terra da Noite.

Izumo ainda falava enumerando todos os motivos que faziam dele alguém completamente desconfiável. Mas seus olhos pareciam estar lhe pregando peças e justo em um momento decisivo como aquele, onde ele poderia estar convencendo aquela que tanto desejava de que era alguém incrível e de muitas qualidades. Alguém a quem ela poderia contar todos os seus sonhos e medos.

Alguém em quem ela poderia confiar.

Sem pensar muito ele a pegou pelos ombros, a virando na direção do brilho.

— O que você-

Izumo olhe. Vê aquele brilho bem ali no fundo? É assim que uma estrela é ao menos a uma distância considerável, ninguém nunca viu uma estrela de perto.

— Aquilo não estava ali antes.

— Como assim?

— Eu venho aqui embaixo muitas vezes e nunca vi algo assim, foi você que trouxe aquilo?

— Não, eu nunca desci aqui até agora Izumo.

As sobrancelhas dela se juntaram formando pequenas fendas de pele no centro da testa à medida em que seus olhos perdiam o foco afiado que tinham, procurando por algo que não estava ali fisicamente e conseguindo apenas mais uma resposta que ela falhava em ter diante da presença dele. Resignada em sua própria frustração que a impedia de pensar adiante, de se lembrar de uma informação importante para aquele momento que havia convenientemente esquecido, as mãos da jovem princesa deixaram de dar atenção ao pergaminho envelhecido que voltou a sua forma inicial, para segurarem as barras largas da calça de linho que vestia, seguindo em direção ao brilho misterioso e tendo ele em seu encalço.

— Então estrelas são assim?

— São. Bem bonitas não acha?

— É, elas podem até ser bonitas mas não iluminam nada.

O riso que saíra dos lábios faceiros dele diante do que havia sido dito fora facilmente contagiado pelos dela, trazendo a Renzo uma sensação de contentamento diferente da que vinha sentindo desde que colocara seus pés na Terra do Pôr do Sol e conhecera aquela que habitara seus sonhos até então. Naquele breve e rápido momento onde corriam em direção ao misterioso brilho que em tanto se assemelhava ao de uma estrela da Terra da Noite nada do que acontecera anteriormente parecia fazer sentido em ser mantido em primeiro plano - ao menos fora o que ele pensara diante da atitude dela. O objeto de atenção estava a frente, se aproximando cada vez mais e tamanha não fora a decepção da parte dele em notar, conforme retiravam em um esforço conjunto o monte de areia onde o tal brilho estava escondido que este se tratava ser de um pedaço de espelho partido. Um bem grande por sinal, que se mostrara ser tão grande quanto uma Izumo agachada.

— Ah, é só um espelho.

— Um o quê?

E por mais que Renzo se perguntasse o quê um caco enorme de espelho fazia embaixo de tanta areia, no meio de um deserto tão grande quanto e enterrado no subsolo de um palácio que era praticamente impossível de ser encontrado, algo que lhe fisgara a atenção para longe desse pensamento estava na superfície dele.

Não havia nenhum risco, um trinco sequer em sua superfície.

— Um espelho Izumo, eles refletem a nossa imagem mas não passam de vidro.

Espelho... como o Espelho do Mundo?

— E o quê seria o Espelho do Mundo?

Os dois observavam seus reflexos de cima e enquanto uma o fazia com curiosidade no olhar, o outro se devaneava em observá-la entretida com a própria imagem, notando como a faceta do espelho ainda era capaz de refletir a luz que iluminava aquele lugar mesmo daquela distância. Como as pequenas pedras que decoravam os brincos pesados que Izumo usava faziam o mesmo, criando fachos de luz menores no espaço onde estavam e somente estando imerso na imagem dela que ele pudera observar um lampejo de compreensão passar pela feição da princesa, a deixado menos tensa e mais serena diante da pergunta que ele havia feito.

— É o espelho que deu origem a Terra do Pôr do Sol. Antes dela existir havia um outro mundo além do nosso, um mundo que esse espelho refletia isso até ele se partir dando origem ela e a todas as outras terras que existem nesse imenso deserto. Um mundo onde não existe o pôr do sol em mais de um lugar.

— Eu nunca tinha escutado essa.

— Acho que para alguém de fora isso pode parecer estranho mesmo. Mas eu já sonhei com esse outro mundo assim como você sonhou comigo, meio esquisito não?

— E como era lá?

Ela se ajoelhou sobre a areia e levantou o estilhaço que outrora fora um espelho completo propriamente, consequentemente aumentando a capacidade dele em refletir a luminosidade de onde estavam, enquanto ele fizera o mesmo, colocando uma de suas mãos sobre a lâmina encarando seu reflexo e olhando para o dela no processo - ignorando qualquer senso de auto preservação que pudesse alertá-lo do quão danoso poderia ser colocar as mãos em um pedaço de vidro como aquele. Para ele era incomum vê-la tão tranquila falando sobre algo que não fosse enxotá-lo para longe dela, tanto que o príncipe não soube como reagir, sendo pego de surpresa diante da imprevisibilidade que aquele momento trouxera ou mais precisamente, diante da imprevisibilidade vinda dela.

A expressão que Izumo carregava apenas olhando seu reflexo era inédita, uma que ele vira apenas uma vez em todos os sonhos que tivera com ela.

Ela transbordava afeto apenas com o rosto!

— Não me lembro exatamente de como era, mas me lembro de que eu tinha uma mãe e uma irmã mais nova e de que a minha mãe me dava mais trabalho do que ela. Nós vivíamos felizes e as vezes eu queria que isso fosse de verdade, é tão doloroso viver aqui sozinha, se não fosse por você e por aquela sombra eu provavelmente teria me esquecido de como é falar.

— Que sombra?

— Antes de você chegar existia uma sombra que me seguia por onde quer que eu fosse como você, o que faz de vocês seres incrivelmente irritantes.

— E como ela era?

— Você faz perguntas demais, eu não sei dizer. As sombras são diferentes mas eu não consigo explicar o que essa tinha de diferente, e para ela desaparecer depois de você ter chegado, na realidade ela sumiu depois que você mostrou o seu rosto... logo depois de você ter entrado no palácio... eu não tinha entendido isso mas agora faz sentido! Foi do mesmo jeito com o seu irmão!

Os olhos dela estavam brilhantes e um sorriso de quem acabara de encontrar algo novo surgira.

— Antes dele ter chegado ao palácio havia um certo número de sombras e depois que ele foi embora esse número diminuiu em um! Renzo você me via em seus sonhos por causa da sua sombra!

— Como você sabe quantas sombras tem aqui? Eu nunca que conseguiria saber quantas sequer existem aqui.

— Eu sou a princesa da Terra do Pôr do Sol oras! Isso é algo que eu tenho que saber.

Então algo de diferente acontecera, tragando assim a atenção dos dois para o espelho mais uma vez. E talvez fossem pelas palavras que acabaram de serem trocadas, talvez fosse pelo tom de voz usado por trás delas ou talvez fosse apenas a mera presença do príncipe da Terra da Noite ali, naquele momento específico, que tornou toda aquela sequência de eventos favorável para acontecerem diante da jovem princesa, isso seria algo para ser pensado adiante pois naquele instante, ambos os pares de olhos estavam intrigados com o que acontecia a superfície do espelho. Sua superfície brilhava de forma falha e independente da luminosidade que vinha refletindo até então, como se eles o houvessem sustentado do solo e o inclinassem de um lado para o outro rapidamente.

Em seguida imagens que não eram mais as deles passaram a ser mostradas na superfície.

E Izumo estava presente nelas, mas era uma Izumo diferente daquela que observava perplexa o que estava diante de seus olhos.

E assim como ela, outras duas pessoas muito semelhantes à imagem dela estavam ao seu lado, segurando suas mãos, uma de cada lado. As três caminhando juntas em um cenário muito distante da realidade do deserto.

Havia verde e cinza e vermelho também. Cores que ali não coexistiam com tanta facilidade.

As roupas que elas usavam eram diferentes, estranhas até, nunca que alguém ali conseguiria usar algo daquele nos pés em meio a tanta areia.

— Elas são a sua cara Izumo, será que não era com elas que voc-

Renzo cometera o deslize de olhar para ela naquele momento. No exato instante em que as lágrimas que não conseguiam mais ser contidas começavam a escorrer sobre as maçãs de seu rosto, deslizando sobre suas bochechas, à medida que os dedos da mão que não se ocupavam de segurar a lâmina deslizavam por sua face resplandecente em completo transe, entorpecida pelo o que via nela.

— Tsukumo, Tamamo... minha irmãzinha... minha... mãe...

Depois viera o choro silencioso, os ombros tremendo em soluços.

O espelho emitira um som seco ao se encontrar com a areia novamente.

E Izumo. Ah, Izumo tinha as mãos sob a cabeça, puxando o máximo de fios que conseguia em sua epifania.

— Eu perdi elas. Perdi as duas. As duas morreram. Morreram!

E foram as mãos dele que a impediram arrancar aqueles fios.

— Calma Izumo, como assim morreram? Elas estavam bem vivas ali-

O rosto dela que mirava a areia se voltara para ele, vermelho e molhado.

— Eu me lembrei, me lembrei de tudo Renzo. Elas morreram. Eu perdi tudo o que tinha e depois, depois eu estava aqui, uma princesa, dá para acreditar nisso? É loucura, não é? Eu morri e vim parar aqui?

Seu corpo ainda tremia diante da descoberta. Com os olhos arregalados, mesmo que sua vista estivesse embaçada demais para precisar alguma coisa diante de si, tal como o ar que preenchia seus pulmões de maneira desregulada como se ao invés deste, areia completasse o pouco espaço que sobrasse ali. E mesmo imersa em seu estado atônito e confuso, ela não relutara quando os braços dele a envolveram em um abraço, sua cabeça sobre a dela, suas mãos correndo por seus braços tentando reconfortá-la.

— Você não morreu Izumo, lembra do que me contou? Do espelho que quebrou e deu origem a tudo isso aqui?

— Mas isso é só uma história, um mito, não é verdade.. não tem como ser verdade...

— Então como eu já te conhecia ali no espelho?

— Como assim?

— Olhe, ele ainda está mostrando imagens.

E realmente, ela notou depois de se recostar sobre o peito dele mais sentindo do que escutando as batidas levemente aceleradas de seu coração, havia alguém muito semelhante a figura de Renzo sendo mostrado na face iluminada do espelho. A única diferença talvez estivesse na cor do cabelo que além de inédita aos olhos dela era clara demais, detalhe que a fizera olhar entre aquele que a abraçava e o outro que estreitava os olhos com um sorriso estranho, sendo mostrado no espelho para ter certeza.

— Ele parece menos confiável do que você.

— Isso é um elogio?

— Para considerar isso um elogio então vocês realmente são a mesma pessoa.

Aquele Renzou que possuía uma cor de cabelo inédita parecia tratar a sua versão refletida de maneira semelhante também, se não fosse por algo dentro dela - uma noção vacilante - que dizia que nele ela não conseguiria confiar completamente, ao menos não a primeira vista. Tão pouco depois de uma segunda impressão.

— E o que fazemos agora? Você vem comigo ou me deixa ficar aqui com você?

Ela negou com a cabeça fazendo com que os brincos que usava balançassem levemente, se afastando dele e secando seu rosto com a manga da blusa em seguida. Um suspiro de alívio lhe escapara. Ao menos ela deixara de se sentir incomodada pela insistência dele em querer estar ao lado dela.

— Você precisa voltar para a sua família Renzo. Se o mito do Espelho do Mundo é real e a sua sombra voltou para você assim que você colocou seus pés no palácio tudo indica que eu tenho que ficar aqui, é o meu dever. Caso deixe meu posto, algo que desconheço pode acontecer e tenho a impressão de que não será algo bom.

— Tem certeza disso?

— Absoluta.

— E você vai ficar aqui, sozinha, de novo?

Izumo sorrira, pensando no que seria melhor dizer para convencê-lo disso.

— Uma princesa de sombras nunca está sozinha, foi a primeira frase que consegui ler em um desses pergaminhos. A Terra do Pôr do Sol não existe sem sua princesa, essa foi a segunda e a terceira dizia que uma mulher do deserto é paciente, ela sabe que tudo o que vem vai e assim vice versa.

Ela se levantou, batendo os grãos de areia da roupa que vestia e o ajudando a se levantar em seguida. Tendo de inclinar sua cabeça para poder encará-lo nos olhos ela procurou pensar no conjunto de momentos que haviam divido desde a chegada de Renzo, príncipe da Terra da Noite, em seu palácio e não houvera como deixar de conter o arrepio que correra por seus braços naquele instante. A sensação de já ter passado por aquilo graças a presença dele mais uma vez era doce e convidativa, uma afinidade adormecida que pouco a pouco despertara e ali estava ela, com um gosto aquém na língua tentando aceitar pelo o que acabara de passar.

Ao menos existia uma certeza imutável a qual ela não conseguia negar, mesmo que a pouco relutasse em aceitá-la.

Se não fosse pela presença dele nada realmente teria acontecido.

O estilhaço do Espelho do Mundo provavelmente permaneceria escondido ali embaixo sem que ela o notasse. E ela permaneceria adormecida em sua própria monotonia, ansiando por aquilo que ainda não viera, o depois que se tornara agora e permanecera o mesmo de antes.

— Se nós nos conhecíamos antes do Espelho se partir e nos encontramos agora novamente, eu sei que você vai voltar. Você sempre vai voltar para mim, mas isso não é motivo para você não retornar para a Terra da Noite. A sua família merece saber que você está bem Renzo, você tem uma família para a qual retornar afinal. Eu não.

Naquele momento, assim como quando a vira pessoalmente pela primeira vez, Izumo de fato se portava como uma princesa. Bela e etérea, com uma seriedade no olhar que apenas alguém que se responsabiliza pelo bem dos outros era capaz de sustentar.

Segura e inflexível.

Assim como os galhos remanescentes de uma árvore em um oásis prestes a secar.

Realmente, compará-la a uma estrela fora um erro mas não um erro tão errôneo pois ela brilhava tanto quanto uma, mesmo que solitária.

Mas ele não se atreveria a dizer que ela era tão bela quanto a lua. Não mesmo.

— Você é linda Izumo.

Os lábios dela se recolheram dentro da boca por um breve momento.

— Obrigada.


E tal como estranhos deixam de ser estranhos ao serem nomeados, aquele estranhamento recoberto por tensão que os perseguia desde que se conheceram, esperando pelo melhor momento de eclodir finalmente acontecera, trazendo a tona talvez o lado menos bonito e afável de ambos e de uma maneira singular fora tal momento, tal fração de comenos dividia entre palavras atravessadas sendo trocadas e pensamentos surgindo a medida em que eram postos a prova por tais palavras que colocara em cheque qualquer dúvida que poderiam guardar sobre o outro, fazendo assim com que essas impressões perdessem sua importância diante de algo que ia além do que poderiam imaginar. E isso somente acontecera graças a descoberta daquele estilhaço de espelho escondido sob a areia, pergaminhos e a estrutura de um enorme palácio, que trouxe consigo não somente descobertas como também aquilo que o coração da princesa, de Izumo, mais ansiava mesmo que ela tão pouco soubesse como colocá-lo em palavras.

O estilhaço de espelho encontrado embaixo do palácio agora se encontrava nos aposentos da princesa, recostado próximo a cama espaçosa onde ela raramente dormia e onde o príncipe acabara por se espreguiçar em pleno contentamento ao vê-la sentada sobre o batente da varanda, com a brisa do leste levantando os fios soltos de seu longo cabelo escuro enquanto que seus olhos observavam o deserto que era seu reino.

O espelho ainda lhe mostrava imagens de tudo aquilo que ela vivera em um outro momento, reprisando sempre o mesmo lânguido ciclo quando este chegava ao seu ponto de ruptura. Ela sabia disso pois vira tudo com seus olhos e ao lado de Renzo, conseguira trazer outras lembranças a tona, quando ele também passara a ter pequenos vislumbres daquela vida, por mais que acabasse dizendo as mesmas palavras sempre que ela se deixava consumir pelo remorso de tudo o que poderia ter feito, "eu prefiro o que tenho agora, prefiro você enquanto princesa e eu enquanto príncipe, é mais divertido assim", o que não falhava em fazê-la sorrir mesmo que com os olhos marejados. No fundo ela gostaria de poder compartilhar da mesma indiferença dele e apenas prosseguir com o que tinha em mãos, saber que seus sonhos não eram apenas sonhos afastara a melancolia de seu coração mas ao invés de se sentir leve com isso, Izumo se pegava pensando em outras possibilidades que colocavam em vista o motivo de ela estar ali, na Terra do Pôr do Sol, sendo a princesa daquele reino.

Afinal, o que tudo aquilo significava de fato?

Ela se sentia oprimida por saber tão pouco sobre suas próprias dúvidas, mesmo quando a companhia que tinha a desviasse vez ou outra desses questionamentos ele não poderia ficar ali por mais tempo para distraí-la o suficiente disso, ao menos não por enquanto, antes de qualquer outro ato havia algo que o jovem príncipe precisava fazer para que merecesse um lugar ao lado dela naquela terra. Mesmo que a contragosto da parte dele. Com sua partida se aproximando cada vez mais o humor dele parecera mudar drasticamente, fazendo com que ela recebesse olhares mal humorados sempre que comentava sobre algo que ainda não havia dito a ele sobre o palácio - ao menos assim ela conseguira inverter os papéis, fazendo com que fosse ele quem deixasse de falar tanto no curto período em que conviveram juntos.

Ao menos agora, pensava Izumo enquanto o via ruminar sobre seus pertences os arrumando para a viagem iminente, ao menos agora ela sentiria um anseio diferente do sentia antes de conhecê-lo e por algum motivo seu corpo parecia ansiar de maneira angustiante por tal sentimento.


Enfim o jovem príncipe havia realizado seu sonho e encontrado seu destino.

Mas seu destino o dissera para voltar de onde veio e retornar caso assim quisesse.

E a contragosto, ele seguira as palavras doces de seu destino.

As sombras se reuniram para ver o jovem príncipe partir.

Ele vestia das mesmas roupas com as quais viera.

A princesa tinha um olhar brilhante e um sorriso tímido ao vê-lo pronto para partir - o peso que seus olhos carregavam até o momento em que se encontraram sendo quase inexistente, se não fosse pela sobriedade em seu rosto que dava um outro significado a esse detalhe - usando do mesmo kaftan com o qual o recebera quando chegara ao palácio de sombras em meio as areias da Terra do Pôr do Sol.

Ambos sentiam uma emoção semelhante diante daquela breve despedida.

— Eu queria que você pudesse ver as estrelas comigo Izumo.

— Você sabe que eu não preciso vê-las para conhecê-las, já que me contou sobre elas.

— Mas não é a mesma coisa.

— Não é, porém é tudo o que temos no momento e você deve partir.

A areia corria sobre o piso e os pés dela cruzavam os pequenos montes que eram formados, ficando frente a frente com ele, que ainda não cobrira seu rosto com o longo lenço escuro.

— Porém, eu descobri uma maneira de conseguir ver as estrelas e o que existe além da Terra do Pôr do Sol com você, só que você tem que me prometer que vai me proteger no caminho.

— Você vai vir comigo?

Os olhos da princesa se estreitaram enquanto ela sorria, negando com a cabeça.

— Eu não, mas uma parte de mim sim. Sabe, desde que descobri que as sombras se unem as pessoas que chegam até o palácio, eu me perguntei se o contrário era possível mas nenhum dos pergaminhos me deu essa resposta. Foi quando tive uma ideia e quero testá-la com você, mas você tem que me prometer que vai me proteger.

A confiança do príncipe não vacilara nem pelo mínimo piscar de olhos.

— Sempre.

— Sombras não se separam de um corpo e como sempre estive aqui, a minha sombra sempre esteve comigo por isso, pensei em uma forma dela fazer essa viagem com você.

Algo ainda sem nome começou a borbulhar dentro do peito do príncipe em expectativa, aumentando e crescendo e se expandindo infinitamente pelas veias de seu corpo no momento em que as mãos dela apertaram suas bochechas.

— Acho que nenhum pergaminho dizia isso porque quando um corpo encontra sua sombra eles não querem se separar, mas como não posso sair daqui, eu quero que a minha fique com você até que você volte.

E Renzo sabia que aquelas palavras eram importantes e mereciam a devida atenção, mas o que ele poderia fazer quando sua própria atenção não estava nos ouvidos mas sim em seus olhos, que viam atentamente cada movimento dela. Dos braceletes dourados em seus pulsos que escorregavam dada a inclinação de seus braços aos brincos que reluziam a claridade do sol. Ele pode ver o momento em que os olhos dela se fecharem enquanto seu rosto se aproximava cada vez mais do dele para em seguida sentir algo suave, algo que ele nunca sentira até aquele momento sobre seus lábios.

Era um beijo.

Um beijo da princesa com a qual ele sonhara por tempo o suficiente para começar a amá-la.

Um beijo de Izumo - que estava começando a lhe causar dores na nuca, afinal ela era mais baixa do que ele.

As mãos dela estavam tão quentes quanto o sol tardio, assim como a emoção que começava a se estampar em sua face, corando lhe as maçãs do rosto quando enfim se afastara dele.

— Cuide de mim Renzo.

E de maneira simples. Tão simples como aquelas palavras que foram ditas suavemente, carecendo dos traços tão marcantes que ela costumava colocar no tom de sua voz quando falava com ele. Tão simples como o brilho do sol dando origem a sombras sem estrutura - apenas contorno preenchido - alguma ao passar por seus corpos sob o piso salpicado em pequenos montes de areia que eram espalhados facilmente pelo vento, uma massa negra subira da sombra que o corpo de Izumo criava. Uma tão semelhante a ela em forma quanto em personalidade, visto como essa sombra imitava seus gestos milimetricamente, quase como em um reflexo de espelho.

A diferença era que aquela sombra em nada era um mero reflexo de Izumo, e mesmo sendo como as tantas outras sombras espalhadas naquele reino, seus olhos conseguiriam distingui-la facilmente das outras, ele sabia. Apenas sabia.

Era uma certeza inabalável.

Mas o príncipe ainda parecia confuso diante da incrível sequência de novidades que haviam acabado de acontecer diante de seus olhos.

— Como?

Ela levantou o indicador de uma das mãos, sua sombra fazendo o mesmo.

— Uma condição. Se você dissesse que me protegeria então a minha sombra iria com você, caso contrário a confiança que tenho em você seria nula e isso não aconteceria.

Os olhos dele se iluminaram.

— Então você confia em mim?

— Acho que isso já é motivo o suficiente, não concorda? Se nossos sentimentos são parecidos, só mostra o quão semelhantes somos.

Ela cruzara os braços, desviando os olhos dele ao mesmo tempo que dissera as últimas palavras baixo demais para que ele pudesse escutar.

A sombra parecera ganhar autonomia a partir disso, ao se afastar dela indo na direção do jovem príncipe e se agarrando a um de seus braços firmemente, não dando a ele tempo o suficiente para que notasse o real significado do que ela dissera ao final - o que funcionou de certa maneira, visto que a surpresa dele diante do que acabara de acontecer fora tamanha que lhe tirara brevemente a capacidade de raciocínio, dirá a de fala naquele momento.

E enquanto isso, estando completamente alheias aos sentimentos das únicas pessoas ali presentes, todas as outras sombras observavam aquele momento inédito sem acreditar completamente naquilo que acabaram de presenciar: ver a sua princesa abrir mão de sua própria sombra para um viajante errante. Algo que todas as sombras desejavam ser desfeito diante de sua mera presença, reencontrar seu corpo era o desejo maior de todas ali, voltar a ser um mas lá estava a única pessoa dentre elas fazendo o oposto, e por mais impressionadas que estivessem diante disso - algumas até mesmo se aproximaram da sombra da princesa, que não parecera se incomodar com o gesto - uma parte considerável do grupo que se reunira a entrada do palácio em pura curiosidade se afastara dos dois, parecendo entender que aquilo não dizia respeito a elas.

Izumo parecera grata diante dessa atitude, ter de explicar um motivo que ela não tinha seria complicado.

Mas o complicado ainda estaria por vir, disso ela tinha certeza.

— É melhor ir logo príncipe da Terra da Noite, logo mais o vento muda e a saída daqui ficará cada vez mais difícil.

Renzo passara a observá-la atentamente depois de ter se recuperado, notando a sutil diferença que ela transmitia com sua presença naquele momento se comparado a quando se conheceram. Gentil e sorridente, mas não deixando que sua personalidade arredia se perdesse por completo na tentativa de ser mais amena com ele. Pelo visto, mesmo sem ter sua sombra, Izumo não deixava de ser Izumo.

E essa particularidade o fazia querer ficar mais um pouco.

Mas ele tinha de partir, de um jeito ou de outro ele tinha que vencer aquela vontade que guardava dentro de si - a de querer ficar e esquecer de suas raízes, de deixar sua família para trás - um motivo maior para isso sendo que a princesa da Terra do Pôr do Sol acabara de abrir mão de algo importante para ela em nome dele, e tal gesto não poderia ser simplesmente ignorado por uma vontade puramente egoísta dele.

Mesmo que abrir mão de sua sombra para segui-lo também fosse uma atitude um tanto quanto egoísta da parte de Izumo.

— Eu vou voltar.

— É claro que vai, você precisa me trazer de volta também.

— E eu vou voltar para ficar com você, Izumo.

Aquilo a fizera parar na caminhada que fazia em direção ao que havia além da ampla entrada do palácio, seus olhos não deixando os dele.

Uma lágrima caíra de seus olhos, seguida por outras mas ela não se importou em secá-las, preferindo abraçar seu próprio corpo magro.

O vento oeste viera mais cedo, um bom sinal, uma nota de viagem segura.

— Tudo bem, você pode ficar.

Ele cobriu o rosto e buscou pela mão da sombra dela, caminhando em direção as dunas mais altas a frente do palácio.

Um arrepio correra o corpo da princesa.

Ela conseguira sentir o toque dele através de sua própria sombra e aquela descoberta a fizera rir.

Todas as sombras remanescentes daquela despedida a acompanharam até seus aposentos, buscando atendê-la em seus pedidos. Um jarro de água e frutas frescas. Enquanto ela se sentara sobre sua cama em muito, muito tempo.
Uma noção reluzente se assentara sob seus pensamentos.

Algo acabara de mudar, definitivamente.

E dali em diante ela não conseguiria voltar a ser aquela que costumava ser.

O palácio subitamente parecia vazio sem a presença de Renzo nele, não havia outra voz que não fosse a dela ecoando pelos cômodos amplos e a normalidade que cultivara de modo custoso graças a estada dele ali aos poucos parecia deixar de existir, como se nunca houvesse existido para começar. O espelho recostado ao lado da cama sendo a maior lembrança de sua presença naquele lugar, e olhar para aquele pedaço de vidro refletindo o que vivera em outro mundo fazia uma inconstância se apossar de seus pensamentos agitados.

Ela sabia o que era a morte, sabia o quão doloroso ela era e se obliterara disso ao se tornar princesa, assim como se esquecera de tantos outros detalhes e significados tão importantes quanto, e aparentemente ela só conseguira se separar de sua sombra por conta disso. Pelo saber. Ou melhor, por ela saber, por ela ter recobrado tais saberes antes esquecidos. Pois mesmo sem a posse do seu elemento qualitativo, naquele instante, Izumo ainda conseguia ser completa. Mesmo sem sua sombra ela ainda era e sabia quem ela era, não houvera uma mudança drástica de consciência apenas pela separação de uma em duas, a cisão que fizera funcionava mais como um afastamento - a sensação de estar em dois lugares ao mesmo tempo. E fatidicamente, se não fosse por isso e pela presença do famigerado príncipe errante muito pouco nela teria mudado.

E o melhor exemplo que tinha em mãos disso era o espelho.

Espelho este que trouxera outras questões a tona, mas que ela carecia de conhecimento para conseguir respondê-las.

E mesmo que visitasse os pergaminhos sempre que quisesse, quando bem quisesse, com seus olhos ela nunca o teria enxergado com tamanha clareza nas profundezes do subsolo do palácio. Aquilo que acontecera mais parecendo um feito lendário que necessitava dos elementos corretos para enfim acontecer em sua total magnitude.

Era incrível como, mesmo estando em um lugar onde havia apenas um fluxo de ocorrência vigente, ainda existiam eventos capazes de destoar dessa constância, causando uma série de outros eventos em cadeia e naquele instante, naquele ínfimo instante, munida dessa noção que parecia ser muito maior do que ela conseguia imaginar, a princesa apenas torcia para que o príncipe não demorasse a voltar, contradizendo a uma versão de si mesma que não ainda não tinha o conhecimento de seu passado.

Seus olhos observavam languidamente a bandeja coberta por frutas de cores diversas e suculentas, trazidas pelas sombras assim como um jarro de água já pela metade, em contraste com o deserto afora em seu eterno entardecer, procurando assim se manter presente no lugar onde estava.


A princesa dificilmente dormia por longos períodos mas depois da despedida, o simples ato de apenas fechar os olhos lhe pareceu diferente. Seu corpo parecia ansioso com o prospecto de não mais ver o deserto onde estava e mesmo sem entender do motivo, quando enfim suas pálpebras se deram por vencidas, Izumo pode vê-lo com um semblante sério no rosto sendo pega de surpresa e piscando várias vezes seguidas, e em todas essas vezes, sempre que seus olhos se fechavam - mesmo que rapidamente - Renzo ainda tinha a mesma seriedade no rosto, e a cada relance o que havia ao seu redor caminhava com ele, como se ela também estivesse presente, algo que Izumo não imaginava que aconteceria ao se separar de sua sombra. Ela não esperava sentir e ver através da sombra, tão pouco ter consciência do que acontecia ao redor dela como se estivesse presente onde quer que ela estivesse, vendo pessoas e edificações diferentes daquelas que conhecia, entretanto foi assim por dado período - a viagem pelo deserto era longa afinal.

E como meio de buscar por explicações ela decidira se ocupar com o que existia abaixo do palácio, dedicando mais atenção aos pergaminhos envelhecidos do que a suas obrigações reais - não que estas não fossem cumpridas como de costume, mas sua atenção acabava se dividindo no ato de cumpri-las - trazendo até mesmo alguns deles para a superfície de seus aposentos, os esticando pelo piso e usando seus braceletes reluzentes como pesos para mantê-los abertos. Fora assim que notara que o papel amarelado além de não sofrer dano com o calor da superfície, também não mais lhe pregava peças durante a leitura. Não haviam mais signos e letras mudando ou runas aparecendo sem motivo, ela apenas abria um pergaminho e ali estava o que procurava, respostas.

Porém não eram todas as respostas ela encontrara.

Sua teoria sobre as sombras parecia ter sido mais assertiva do que esperava, visto que indo mais afundo ela acabara encontrando pergaminhos que diziam o que ela precisaria saber antes de ter arriscado a cisão sem ter noção dos riscos que corria, mas mesmo buscando nas seções mais escuras do subsolo a princesa nada encontrara sobre o Espelho do Mundo.

Era incrível como ela tinha acesso a várias áreas do conhecimento, ali, bem ao alcance de suas mãos, menos aquela que buscava.

Assim ela acabara chegando a conclusão de que mitos não tivessem lá muitos registros escritos, afinal.

Fora estando investida em sua exploração, entre um pergaminho e outro - pois certas vezes, ocorria dela deixar mais de um aberto sobre o amplo piso do cômodo - que ela notara duas sombras que sempre vinham vê-la quando ficava por tempo demais em seus aposentos. A silhueta dessas sombras a lembrando muito das imagens que vira repetidas vezes no espelho como sendo as de sua mãe e irmã, mas ela se recusou a acreditar nisso por mais do que o necessário, perguntando a elas do motivo para estarem ali. E assim, a princesa ganhara uma valiosa companhia que acabou ocupando precisamente o espaço vago deixado pela sombra de Renzo, já que as duas passaram a visitá-la com mais frequência, e certas as vezes, até mesmo se sentando ao lado dela para escutarem sobre o que ela lia tão avidamente.


Houve uma vez em que ao fechar os olhos, Izumo notou uma luz amarelada iluminar o semblante do príncipe assim como o vira mexer os lábios, parecendo lhe dizer algo que ela não conseguira compreender de imediato, mas como tudo ao seu redor carecia de luz, ela julgava que haviam chegado ao seu destino.

A Terra da Noite.

E realmente, haviam lanternas por toda a parte naquele lugar. Assim como as roupas das pessoas que via que pareciam ser bem mais carregadas do que as que ela costumava usar, compostas por sobreposições detalhadas e de cores escuras, que quase passavam desapercebidas em meio a pouca claridade emitida pelas lanternas. A passagem deles por entre as vendas era apressada e sua sombra mal conseguia acompanhar as passadas ágeis de Renzo, que se desvencilhava de olhares curiosos tal como evitava os pontos de luz mais óbvios.

O único receio que a jovem princesa tinha dali, distante dele e de sua essência, era de que a sombra se misturasse a escuridão daquela terra. Sendo tão negra quanto a noite, uma sombra se perde facilmente dentro da escuridão desta, deixando de existir e desaparecendo em cor para não voltar novamente.

E esse detalhe era um que ela gostaria de ter sabido com antecedência.

Por mais óbvio que fosse.

Sua noção de ser e estar eram diferentes enquanto sombra. Ela não ouvia nada, isso ficou claro depois de notar que mesmo estando com os olhos fechados ela mais escutava ao som do deserto onde estava do que o daquele onde sua sombra haveria de estar, sem contar das vezes que vira Renzo dizer algo mas não conseguira escutar o que ele dissera e se não bastasse esse infeliz detalhe, ela tão pouco conseguia se comunicar através da fala por meio daquela nova forma. Ao menos, certamente como uma forma de compensar pela falta desses dois sentidos, seus olhos tinham uma visão muito clara do que existia ao seu redor, assim como seu corpo vibrava ao mero contato mesmo que a sombra não fosse completamente sólida para tal fim. Sua situação não deixava de ser uma questão de mera proximidade e naquele momento, ele era quem ela tinha mais perto de si.

E Renzou apertava sua mão com uma força sem igual, chegando ao ponto de ela sentir um pequeno incômodo ao mover seus dedos, como se ele estivesse bem ali ao lado dela e não o contrário, entretanto sempre que abria os olhos grande parte dessas sensações e imagens deixavam de ser claras. Assim como as dunas que eram varridas com facilidade pelo vento, o que via e sentia tão facilmente ao fechar seus olhos mais parecia parte de um sonho.

Izumo abria os olhos.

O deserto em tons de caramelo a acolhia em seu calor impassável.

Izumo fechava os olhos.

Uma larga casa com grandes vigas vermelhas em sua entrada se aproximava.

Abria e o deserto continuava o mesmo.

Fechava e a casa estava cada vez mais nítida, seus pés até mesmo conseguiam sentir o frio das pedras abaixo deles, causando-lhe arrepios em meio a temperatura do palácio.

Abria e as duas sombras estavam ao seu lado na sacada.

Fechava e algo além das pedras frias agraciava a sola de seus pés. Os dedos da mão doíam com veemência enquanto sua vista mostrava o que deveria ser a entrada do lugar bem a sua frente, as vigas enfileiradas lado a lado, até que a porta que bloqueava a entrada dera passagem a um homem que olhara de maneira enfezada para sua companhia, entretanto ela nada pudera processar do momento além disso já que acabara sendo puxada para trás dele no ato. Depois disso o corpo de Renzo se encolhera, como se aquele homem houvesse lhe batido em algum lugar do corpo, provavelmente no topo da cabeça pois sua mão livre massageava aquele ponto em específico.

E por um breve e pequeno momento ela conseguira notar a semelhança quase cruel entre os dois, como se ao envelhecer, aquela fosse a fisionomia que ele passaria a ter.

Então a jovem princesa enfim percebera que o príncipe errante acabara de voltar para o seu lar.

E desde que sua sombra deixara a Terra do Pôr do Sol, o deserto finalmente parecera calmo.

O palácio parecera diferente também, como se uma tempestade de areia houvesse passado por ele sem deixar rastros.

As sombras seguiam. Iam e vinham por todos os lados e cômodos como sempre o fizeram, se não fosse por um pequeno detalhe que fazia daquilo algo diferente - agora a princesa sentia a certeza de que as conhecia genuinamente. Todas elas. Antes era apenas uma noção que sempre esteve com ela, no fundo de sua mente. Um conhecimento ao qual pessoas normais adquirem convivendo em sociedade mas estando ali sozinha, cercada apenas por sombras, ela acabara por entender melhor delas do que sobre si mesma. E naquele momento em especial, depois de ter conhecido alguém como ela - uma pessoa, um humano como ela - finalmente a princesa conseguia compreender seus ditos súditos que sempre estavam dispostos a auxiliá-la no que fosse necessário.

As sombras sempre estariam por perto dela, não importando realmente onde ela estivesse, talvez apenas no subsolo já que ali era um lugar onde nem todas ousavam entrar, mas fosse dentro ou fora do palácio era só questão de se atentar e ela notaria uma ou duas sombras olhando por ela. Zelando por sua princesa.

Izumo nunca esteve sozinha, ela apenas se convencera disso.


Houve outro momento, um em que ela sentira seu corpo completamente frio e gelado enquanto caminhava sobre a areia aquecida pelo sol em seu eterno entardecer, e fechando os olhos brevemente ela se viu em meio a escuridão completa ou quase completa, pois a luz amarela de uma lanterna iluminava parte do lugar onde estava. Renzo andava próximo a ela, próximo a sombra, sua expressão se parecendo mais com aquela que ele portava quando estava no palácio e menos com a que vira da última vez em seu rosto. Caminhando por entre arbustos sobre um solo gelado e úmido, não havia nada além daquelas informações até chegarem a uma pequena clareira. Limpa e aberta e iluminada por uma cor que não era a mesma da lanterna, era uma luz que a fazia associar a cor ao frio daquele lugar de tão clara e incomum que era.

Um dedo tocara seu ombro, lhe chamando a atenção.

Quando Renzo voltou a ocupar espaço diante de sua mirada ele sorria, os olhos desaparecendo conforme o sorriso crescia, dizendo algo que ela não escutava e apontado com o dedo que outrora tocara seu ombro para cima.

Eles estavam no meio da clareira.

E acima havia um céu tão escuro quanto tudo o que poderia existir abaixo dele, se não fosse por dois detalhes que faziam toda a diferença.

Acima deles, iluminando aquele lugar havia um sol ao qual ela conseguia olhar sem sentir aversão aos olhos. Redondo e claro, numa cor que ela desconhecia mas mesmo assim, pensava ser bonito. Muito bonito. E por pouco, muito pouco, ela não se deixara absorver completamente pelo brilho fascinante daquele sol frio.

Haviam pequenos pontinhos brilhantes ao redor e além dele. Grandes e pequenos, com um brilho menor mas que ao lado dele pareciam formar algo único, algo novo e além do imaginado.

Algo que lhe tirava o fôlego.

Aquelas eram as estrelas.

As estrelas com as quais ela fora igualada pelo príncipe!

As estrelas que eram pequeninas e sem forma e muito difíceis de serem descritas apenas por palavras.

Quando Izumo abrira seus olhos novamente ela notara as lágrimas escorrendo por seu rosto, assim como percebera que acabara de chorar em meio ao deserto sobre um céu estrelado que ali nunca existiria - ela vinha chorando muito ultimamente mas por motivos completamente diferentes de outrora.

Parecia um sonho.

E seu maior desejo sendo que o príncipe voltasse o quanto antes, mesmo que pouco pudesse fazer sobre isso. Seu querer poderia ser grande, insistente e persistente, mas em nada ele poderia mudar a distância que os separava, tão pouco saber o que fazia ele demorar tanto em seu regresso.

Ele lhe mostrara a noite e as estrelas, já era o suficiente.

Além disso, ela pudera conhecer outras terras que não fossem as dela. Vira um mundo e outro através daquele estilhaço de espelho, ambos graças a ele.

Renzo lhe dera algo muito além do que ela poderia esperar - sequer imaginar - sem pedir muito em troca.

E ela só desejava que ele voltasse o quanto antes para assim poder lhe mostrar tantas outras perspectivas que a fizessem sentir mais. Sentir seus ossos e músculos e sangue vibrando em regozijo. Sentir mais do que ela jamais conseguira sentir estando solene em sua própria companhia.

Que emoção complexa era aquela?

Era isso sentir algo por alguém?

Desejar a presença de outra pessoa?

Ambicionar por algo que não era seu por completo mas que lhe fazia sentir completude? Por que se fosse isso, era demais para que ela sentisse tanto em um espaço tão curto de tempo.

Mesmo tendo tanto tempo para assimilar cada pequeno detalhe.

Mesmo tendo notado a forte semelhança física que Renzo tinha com seu pai e que compartilhava com seus irmãos.

Mesmo tendo visto aquele olhar velho e sério sendo direcionado a ela pela primeira vez.

Mesmo que todas aquelas sensações e emoções fossem novas e desconcertantes em certo ponto, ela não conseguia se imaginar simplesmente esquecendo todos aqueles momentos que acabaram por se tornar preciosos.

Mesmo que tudo isso e aquilo mais parecessem sonho do que mera realidade.


Seus olhos cansados caíam em sono quando ela sentira aquela bochecha que não estava pressionada sobre o travesseiro tão fofo e macio que praticamente afundava com o peso de sua cabeça, se aquecer, mas ela estava cansada demais para se manter alerta quando mal notava a diferença entre que era sonho ou a realidade que sua sombra lhe mostrava. Renzo tinha uma das mãos sobre aquela bochecha. Com olhos doces, dizendo palavras que ela não escutava mas depois de se acostumar aquele estado, ela parecia ter se tornado capaz de entender ou apenas pensar que entendia, o que lhe era dito.

"Estou voltando para você"

Uma pontinha de alento, tal como a água que persiste fluir em um oásis.

E ela tivera sonhos tão brilhantes quanto o brilho das estrelas que tardavam a serem processados pela retina de seus olhos.


Houvera uma tempestade de areia na Terra do Pôr do Sol, uma tão intensa que a princesa pouco se lembrava de já ter visto algo parecido. O brilho do sol tardio era ofuscado por inúmeros grânulos de areia reunidos, sendo levantados por uma corrente de vento voraz, que corria pelos espaços abertos do palácio como se assim o possuíssem e nada ali, nem ela poderia impedi-los em sua impetuosa passagem. Era cortante dilacerante até, mal poder abrir os olhos sem ser cegada pela força do vento mas mesmo assim, mesmo sendo pega de surpresa pelo inesperado, naquele momento Izumo não encontrava em si tamanho incômodo.

Talvez ela estivesse esperando pela tempestade com uma ânsia que nem mesmo ela entendia. E enquanto o vento cortante açoitava seu rosto, ela caminhava pelo palácio, vendo que suas sombras andavam por ele numa tranquilidade maior que a dela. Haviam poucas mas estavam ali, admiradas pela força da natureza do deserto, vendo a areia correr forte e livre pelas pilastras e cômodos e amplos salões, movendo tudo por onde passavam - tão forte que mal conseguiam se acumular nas depressões da fonte central que a muito deixara de brotar água.

A tempestade de areia durara algo entre muito e muito pouco.

Tão rápido quanto veio ela se fora e depois disso, depois dela ter feito do palácio e daquela terra sua morada os ânimos de todos os presentes ali se avivaram como se ansiassem por algo além do vento e da areia e do brilho do sol em seu entardecer.

Fora depois da tempestade que o príncipe errante regressara aquela terra.

Seu corpo vibrava e ressonava a chegada de sua sombra, mal dando a ela a capacidade de perceber que aquele seria o sinal que ela tanto esperava receber.

Estando em uma sacada onde o sol brilhava intensamente, aquecendo o mármore e a areia, ela vira um número considerável de pessoas se aproximando por entre as dunas altas formadas pela tempestade.

Seus dedos deslizaram sobre a pedra da sacada se recolhendo e fechando nas palmas de suas mãos.

Izumo não sabia como se sentir nervosa, aquela era primeira vez que seus sentidos saboreavam tal sentimento pouco conhecido.

Ela não correra em direção a entrada do palácio, tão pouco trajava algo esplêndido para seus convidados, apenas andara deslizando seus pés sobre o piso e seus grãos de vidro pequenos demais para causar dano a sola deles - dada a temperatura muitas vezes ela se encontrava descalça dentro e nos arredores do palácio, seu corpo completamente habituado a Terra do Pôr do Sol - o ar ia e vinha por meio de seus pulmões, assim como os pelos em seus braços se arrepiavam.

Renzo havia voltado de fato.

As sombras mais uma vez se reuniam na entrada, mesmo que não houvesse necessidade nisso. Todos ali pareciam curiosos sobre aqueles que vinham e iam por aquela terra. Quase como se esperassem ansiosos demais por sua vez de partir.

E quando um grupo de pessoas trajando das mesmas vestes que as dele na primeira vez que o vira, se aproximavam com o jovem príncipe e sua sombra os guiando na frente, ela apenas correra. Correra sobre a areia quente. Correra com seus pés afundando no solo fofo. Correra até ele e quando estava perto - perto demais - perto o suficiente, ela saltara em seus braços.

O deserto continuava quente.

Mas seu anseio se derretera naquele abraço. Tão quente e acolhedor, que ela mal notara o momento em que sua sombra voltara a ser sua, só processara em ondas tudo o que ela, distante de seu corpo, vira. Não eram imagens sólidas. Sua mente fora assolada por sensações e vislumbres como se estivesse sonhando acordada.

Mas ela não estava sonhando, ao menos não naquele momento em que seus olhos viam realmente o castanho claro da íris dele de perto.

Seu peito estava leve mesmo pulsando tão depressa, uma bela sequência de inconsistências as quais ela não se lembrava de ter sentido até aquele momento.

A noção de ter novamente algo que estivera ausente.

— Você voltou.

Ele tirara o tecido que cobria parte de seu rosto e aquele mesmo sorriso de antes estava ali, intacto, mesmo depois de não tê-lo visto fisicamente ao longo de toda a viagem.

— Eu disse que voltaria, não disse?

— Seja menos convencido, príncipe da Terra da Noite.

O brilho no olhar dele parecera difuso por um momento.

— Acho que agora esse título não me pertence mais.

— Você voltou para ficar-

Com você. Ficar com você Izumo.

Um sorriso, que fazia os músculos de seu rosto se contraírem dada a inabilidade daquela expressão de contentamento, tomara seu rosto ao ouvi-lo dizer aquelas palavras novamente.

— Por que você tem que ser tão insistente?

— Porque você é teimosa, Izumo.

Com isso ela se desvencilhara do contanto que os aproximava, puxando uma de suas bochechas em retaliação - até que seus olhos notassem aqueles que estavam atrás de Renzo.

Aqueles que a olhavam com surpresa, como se houvessem visto o improvável se tornar concreto.

Aqueles que compunham as cabeças ela que vira da sacada, antes que seus instintos se voltassem apenas para ele.

E Renzo, notando a curiosidade vinda dela, mesmo não se sentindo tão confortável com isso, esclareceu quem aqueles poderiam ser.

— Minha família. Meu pai e meus irmãos. Eles queriam ter certeza de que você era real.

— Mas eu sou real.

— Eles só conheciam a sua sombra Izumo.

Passada a euforia do reencontro ela via razão nas palavras dele.

— Então é melhor entrarem no palácio, vocês não estão acostumados a essa temperatura.

A caminho da entrada para o palácio, com uma trilha de diversos pares de pegadas sendo formada sobre a areia atrás do pequeno grupo e tendo o jovem par reunido guiando o caminho a frente, uma das mãos de Renzo encontrou a dela, entrelaçando seus dedos que pareciam suar mais ao toque, fazendo com que a mente de Izumo a lembrasse do que sentira antes daquele gesto - daquele instante de momento - do que sentira ansiando por aquele toque, mesmo sem saber o porque.

Mesmo sem entender precisamente o porque.

— Senti sua falta.

— Isso é bom.

— É?

— É. Mostra que eu me tornei importante 'pra você.

— Convencido.

— Você que me fez ser.

O riso que borbulhara entre os dois trouxera estranheza aqueles que os seguiam, mas estando de costas para eles os dois pouco puderam se importar com tal detalhe, continuando a trocar palavras e mais palavras, assim preenchendo o todo que os havia separado até então.

— E eu vi as estrelas também, elas são realmente tão lindas quanto você disse, mas como se chama aquele sol que não é quente?

— Lua.

— Lua?

Renzo apenas concordou com a cabeça dizendo "é, lua", mas o sorriso em seu rosto mostrava o quão contente ele estava em poder ter fornecido esse pequeno e banal conhecimento á ela.

Era reconfortante poder estar na presença dela mais uma vez, e dessa vez em definitivo.


Desde que se entendera por princesa, Izumo nunca estive na presença de um número tão grandioso de semelhantes a ela como naquele momento.

Certo de que contando com ela, haviam seis pessoas naquele palácio mas ainda assim, era um número grandioso.

E diferente de quando estiveram durante a chegada de Renzo, as sombras pareceram perder o interesse em seus novos visitantes tão brevemente quanto sua chegada, se resumindo a serem no máximo cordiais - a sua maneira - a presença deles que pareciam genuinamente intrigados com elas.

Primeiro viera a torrente de perguntas sobre ela, sobre aquele lugar e sobre como um monumento como aquele palácio permanecera invisível estando no meio do deserto. Sobre as sombras e tantos outros tópicos que ela mal conseguia entender do motivo - afinal eram todas as pessoas tão curiosas assim?

Porém ela dissera pouco com suas respostas, mesmo aqueles sendo os parentes de Renzo, não haviam motivos para contar dos feitos e desfeitos da Terra do Pôr do Sol. Se eles estavam ali para conhecê-la, ela faria o possível para isso acontecer deixando esses detalhes bem menos atraentes.

Não era correto que eles soubessem de tudo antes do tempo.

Eles não chegaram ali por sua conta e risco, vieram guiados por Renzo, ainda não estavam prontos.

A falta de interesse das sombras dizia o suficiente sobre isso.

Mas fora interessante conhecer outros aspectos de personalidade vindos da família dele. Seus irmãos conseguiam ser barulhentos mesmo sem ter um motivo aparente, assim como o pai, que sempre tinha de aumentar o tom da voz para impor respeito sobre eles.

— Aqui é quente demais!

Fora o que disse um dos irmãos, esse sem cabelo algum mas com uma expressão completamente contente.

— Claro demais!

Exaltara outro, Juzo, se ela bem se lembrava.

— Como alguém consegue viver aqui? Eu morreria se tivesse que viver assim, caramba, eu tô morrendo!

— Kinzo!

Mas Kinzo, o mais barulhento dos irmãos e com uma personalidade tão distinta quanto, pouco se incomodava em ter sua atenção chamada, ignorando completamente esse detalhe e se mantendo em suas reclamações que estavam se tornando mais certeiras a medida que eles conheciam o palácio.

— Ei pai, você vai mesmo deixar o idiota do Renzo ficar aqui sozinho com ela?

— Será que vocês não conseguem demonstrar o mínimo de respeito com a princesa?

Contando que grande parte da animosidade viesse apenas de dois dos irmãos, ela conseguia entender os motivos de Renzo em não querer ficar tão próximo a eles, mas não diminuía o sentimento de que eles formavam uma boa família. Uma sólida família.

Eram pessoas que não pensariam duas vezes em estender a mão caso fosse preciso.

E ela percebera que gostava de pessoas assim.

— Agora entende porque eu não queria voltar?

— Você é imaturo demais se pensa que isso é um bom motivo.

O não-mais-príncipe da Terra da Noite apenas estalara a língua como resposta, deixando de olhá-la nos olhos para observar o deserto da sacada dos aposentos da princesa, enquanto ela trazia suas pernas para perto do corpo, colocando a cabeça sobre os joelhos.

— Você tem uma boa família, quer mesmo abrir mão deles para ficar aqui comigo?

— Sem nem pensar duas vezes.

Ele parecia tranquilo ao dizer aquelas palavras tão ríspidas. Assim como não deixara de lado a oportunidade em poder ficar a sós com ela, quando o pai decidira investigar os amplos jardins do palácio e os irmãos procuravam sombras para interrogar.

— Você não se apega as pessoas ou não gosta de se apegar a elas?

— Nenhum, nem outro. Eu só penso diferente deles, não é como se não me importasse com eles.

"Eu não queria que eles viessem comigo, mas não poderia deixar de provar a minha palavra de que você era real e de que eu não iria sumir de verdade, nem ser morto por alguma deidade estranha", era o que ele parecia dizer com aquelas palavras. Isso porém não mudava os fatos e um deles era a separação que a permanência dele ali causaria com relação a sua família.

— Você sabe que depois de saírem daqui eles não vão poder voltar quando bem entenderem, não sabe?

— Não?

O olhar meramente surpreso dele trouxera a tona um suspiro que ela segurava desde o começo daquela conversa sem nem ter notado.

— Só aqueles que buscam por conta própria encontram o palácio e você os trouxe aqui sem o consentimento deles.

— Então foi por isso que as sombras se afastaram quando eles chegaram.

— Exato.

— Por isso que o Take voltou diferente de sua última viagem então!

Os dois se voltaram para a presença do outro que acabara por se anunciar.

— Sei que não deveria estar escutado a conversa de vocês mas, este é um lugar especial, não é mesmo princesa? É difícil encontrá-lo por causa disso, certo?

Aquele era Juzo, o mais velhos dos irmãos e certamente, o mais esperto dentre eles. Não havia um detalhe dito que seus ouvidos deixassem escapar.

— Sim.

— E por quê, exatamente?

Izumo esfregara ambos os braços sem entender o motivo, desconforto talvez.

— Uma sombra só pode aceitar seu corpo quando o corpo aceitar sua sombra, forçar isso é errado.

— E como a sua foi tão longe com o meu irmão?

— Porque eu quis, caso contrário não seria prático.

— Então você gosta dele a esse ponto?

Uma certeza inabalável se acometera sob a princesa, uma que ela nunca havia sentido até aquele momento.

— Eu confio nele.

Tal resposta parecera ser o suficiente para ele que assentisse, se desculpando pela intromissão mais uma vez e voltando por onde havia vindo. Fora quando ela notara o resto dos irmãos escutando a conversa da entrada do cômodo, suas cabeças atentas escapando pelo batente desta.

— Por que os homens da nossa família acabam com tábuas?

— Tábuas?

— Kinzo!


Ter o palácio com mais vozes certamente o tornava mais vívido, a princesa constatara.

Izumo continuara a partilhar pouco dos segredos daquele lugar, esperando que isso os trouxesse de volta quando fosse o momento deles. Não que encontrar com sua sombra fosse a realização de uma vida mas ela acabara pensando no melhor para eles, já que acabara por gostar da energia que tinham - eles só chegaram ali preocupados com um dos seus, eram pessoas que mereciam um pouco de atenção ao menos.

Quando chegara o momento da despedida e os irmãos diziam palavras que ela não se atentara a entender totalmente, o pai de Renzo finalmente viera até ela para dizer algo além de perguntas sobre aquela terra.

— Eu me lembro de como meu filho mais velho retornou para casa depois de ter vindo até aqui, acabou que o mais novo não estava diferente dele. Quando soube que Renzo havia feito o mesmo que ele fiquei furioso. Não queria que ele terminasse como o irmão mas, assim que vi aquela sombra não soube o que pensar.

Ela já havia imaginado aquele cenário quando o vira encarando sua sombra.

— Ficou preocupado?

— Que pai não ficaria? O filho some da noite 'pro dia e aparece com uma sombra tão preta quanto o breu do lado. O que você pensaria?

— Não sei, eu vivo com sombras.

O homem balançou a cabeça em negação.

— Eu só queria algo melhor para ele. Renzo é jovem, poderia fazer tanto, entretanto acabou escolhendo você.

Fora a vez dela em negar com a cabeça.

— Eu também não queria que ele ficasse mas parece difícil fazer ele mudar de ideia.

— É um garoto teimoso, mesmo sendo relaxado.

Os dois acabaram rindo dessa última parte, até que ele gritasse com os quatro filhos, quando estes tentavam afogar Renzo em areia na fonte central mas isso de nada impedira as brincadeiras questionáveis dos irmãos - trazendo a mente de Izumo algo que ela gostaria de saber caso surgisse a oportunidade.

E ali estava o pai dele, não haveria momento melhor que aquele.

— Como Takezo morreu?

Os olhos do homem expressaram rapidamente a surpresa pela pergunta, até voltarem a serem sérios.

— Saqueadores invadiram nossa terra, Renzo era apenas um bebê, ele mal pode conhecer o rosto do irmão. Tazeko morreu protegendo ele, sacrificando sua vida para salvar a dele, mesmo que hoje o garoto pouco se importe com isso.

A princesa sentira a surpresa antes que pudesse de fato compreendê-la porém, não por ter tido a sua resposta e sim por algo que não esperava vindo dela.

Graças aquele breve relato o motivo de Renzo ter aparecido anos mais tarde ali se mostrara muito maior do que ela sequer poderia ter imaginado, deixando de ser apenas uma busca mas sim a busca que fora iniciada antes mesmo dele sequer ter vindo ao mundo e a qual ele apenas prosseguiu, sem contar um detalhe nítido que poderia ser passado apenas de uma pessoa a outra e que muito pouco seus pergaminhos poderiam descrever em qualidade tão distinta.

Sacrifício.

Uma vida por outra.

Algo pelo qual se doar e morrer por.

A real beleza de uma vida sendo vivida, com ou sem uma sombra.

— Ele não teve tempo de conhecê-lo para entender o que você sente.

— Exato. Só é difícil vê-lo partir antes dos mais velhos.

— Mas você pode vir vê-lo se assim quiser.

— Posso?

Izumo sorrira, entendo o motivo dela pouco ter visto o homem no curto período em que ele ficara em seu palácio.

Ele fora o único dos que iam a levar sua sombra consigo.

— Você sabe o caminho e eu não vou impedi-lo caso queira vir vê-lo.

Ela pode notar o momento em que um peso invisível deixara de pressioná-lo nos ombros, para em seguida ter de inclinar a cabeça para assim olhá-lo nos olhos.

Afinal, ele a segurava nos ombros.

— Então peço que cuide do meu filho, Izumo Kamiki.

— Como-

— Renzo me contou sobre o espelho quando ameacei separá-lo da sua sombra, assim como seu nome.

— Eu sabia que ele tem uma boa família.

E aquela conversa breve teria se prolongado em outros tantos elogios e palavras afetuosas, se não fosse pelo som estranho e inédito vindo da fonte onde os irmãos ainda estavam tentando afogar o mais novo entre eles, totalmente alheios ao som de algo se esforçando para sair de onde estava preso que a haste central emitia.

Fora tão rápido que ela mal pudera registrar a qualidade daquele estrondo, no instante seguinte os irmãos estavam todos encharcados assim como ela e o patriarca da família.

A fonte central voltara a jorrar água.

Em um momento os quatro discutiam fortemente e no outro, estavam todos molhados em água e areia e aquilo era incrível, só poderia ser um sinal. Um bom sinal, tal como fora a tempestade.

E a princesa se sentia feliz.

Quando a família realmente passara pela entrada do palácio, depois de terem se despedido de maneira menos animalesca, se resumindo apenas a acenar com as mãos desejando o mais alto que conseguiam o bem daquele que ficava, enquanto que o mais barulhento deles parecia secar algumas lágrimas, Renzo finalmente parecera ter voltado a sua própria essência.

Os dois ainda estavam na entrada, observando o grupo desaparecer por entre as dunas quando ele a olhara da mesma maneira que lhe causara arreios da primeira vez que se conheceram.

— Finalmente sós!

— Se eu correr ainda alcanço eles, sabia?

— Você não faria isso.

— Eu sou uma princesa, eu faço o que quero e não vai ser você a me convencer do contrário.

Com um sorriso presunçoso e nem um pouco aflito dado ao lhe fora dito, Renzo a pegara pela cintura, levantando o corpo da princesa do chão e caminhando rumo a fonte central do espaçoso palácio, para no momento seguinte colocá-la dentro dela e debaixo da água que jorrava incessantemente.

— Então é mais fácil te convencer a mudar de ideia.

— Muito engraçado - rebateu o puxando para dentro da fonte também.

E fora em meio a risos que ela notara algo sólido demais em meio a quantidade absurda de areia que havia se acumulado na parte interna da fonte. Suas mãos deixaram do jogar água naquele-que-já-não-era-mais-príncipe para examinar aquele detalhe, que se soltara de onde estava para poder vir a superfície.

Era outro estilhaço de espelho, este bem menor que o anterior, provavelmente do tamanho de uma cabeça.

— Quando foi que ele foi parar aí?

— Este é outro Renzo, não é o mesmo que você encontrou.

— Ainda assim, como Izumo?

E tal como aquele, este também parecera brilhar e captar um sinal que ela desconhecia, para assim mostrar imagens do outro mundo que havia existido antes daquele.

— Eu não sei mas, parece que alguns pedaços do Espelho do Mundo podem estar aqui na Terra do Pôr do Sol - as imagens refletidas nele eram daquele Renzo de cabelo colorido — ou somente os pedaços sobre nós dois...

— Os seus pergaminhos não dizem nada?

Ela negou.

— Ao menos não aqueles que li, mas com você aqui talvez eu consiga encontrar uma resposta.

Ele a abraçou o mais forte que podia estando na posição em que estava e estando aonde estava, mais precisamente. Completamente encharcado pela segunda vez e dentro daquela fonte monumental.

— Eu estou aqui por você.

E assim a princesa da Terra do Pôr do Sol deixara de ser solitária em sua companhia, já que encontrara alguém com quem dividir e partilhar de seu mundo. Os seus dias a partir daquele passaram a ser cada vez mais diferentes e cada vez menos iguais. Sempre haveria algo de inesperado no convívio partilhado pelos dois e aquilo era algo que ela havia buscado tão intensamente, tão incessantemente que quando finalmente o teve em suas mãos, diante de seus olhos, levara mais do que o imaginado por ela para ser de fato compreendido - pois somente tendo Renzo por perto que Izumo compreendera que nada viria a seu encontro como ela esperava, ou imaginava. E isso carregava um significado imenso para a jovem princesa, que agora além de lidar com sombras, tinha de aprender aos erros e acertos como relacionamentos com seus semelhantes funcionavam.

Se ela estava ou não apaixonada isso era algo que somente as areias do deserto poderia dizer. Entretanto era certo de que seu coração sentia um grande afeto por ele, isso era inegável. A presença dele mudava tudo ali. Trazia vida, vibrava a voz, fazia com que aquele lugar não fosse tão oco, tão vazio, mesmo estando cheio de sombras bem vivas.

Outros viajantes vieram e partiram desde que Renzo retornara.

As sombras pareceram se acostumar a presença dele também, tal como aquelas duas sombras que a acompanharam em sua espera.

Juntos eles enfim encontraram pergaminhos sobre o Espelho do Mundo.

Assim como uma presença misteriosa que regia aquela terra inóspita.

E a princesa estava verdadeiramente feliz, alegre como em nenhum outro momento varrido pelas areias do passado.

Suas lágrimas de remorso enfim secaram para dar espaço para outras que traduziam o contentamento que muitas vezes, ela falhava em conseguir expressar em palavras.

  • Contagem de palavras antes da revisão: 12.210 vs. Contagem de palavras depois da revisão: 17.418, apenas sintam a pressão que eu senti.
  • E digitando de maneira honesta e sincera, do fundo do meu coraçãozinho de shipper, estou completamente aliviada em ter conseguido publicar essa belezinha ainda esse mês depois de ter passado praticamente o ano trabalhando nela (sério, só revisando foram quatro meses! eu literalmente terminei horas atrás!) e cansada para um senhor caramba também. Socorro Katoooooo! Quando voltar em agosto faça com que meus esforços tenham valido a pena mulher!! Me surpreendaaaaaaaa!!!
  • O doujin que me inspirou a escrever (e de onde emprestei o universo, construção de trama) essa oneshot se chama "The Prince who Loved a Shadow", e vocês podem encontrá-lo por aí para a leitura que eu recomendo fortemente caso queiram fazer aquela comparação marota, como conhecer a história original, mas eu fiquei surpresa mesmo foi de tê-lo achado no goodreads isso sim.
  • De criação minha só possuo o mito do "Espelho do Mundo" o resto eu apenas adaptei. E caramba, essa pseudo alta fantasia praticamente acabou com os meus neurônios!
  • Ah! Kaftan é uma vestimenta feminina tradicional que mais parece uma camisola enorme toda decorada e me limitei a ela sobre vestimentas tradicionais, as outras tinham muitos significados conflitantes pro meu gosto.
  • E antes que eu me esqueça! A capa foi feita com o nichi, eu agradeço imensamente a quem se dispõs a encarar esse dragão celestial e huh, me desculpem pelo alto exagero no uso de adjetivos e sinônimos, eu estava querendo bater a minha velha meta de escrever uma oneshot de dez mil palavras antes que esse ano acabasse sabe...


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doukyuusei (bijutsubu)

※ o pseudo clube de artes da snow
Sinta-se bem vindo ao Doukyuusei, um clube de artes cibernético que de arte só tem o entusiasmo mesmo pois se encontra abarrotado de poesia, ruminações sobre a vida e universo, análises altamente emocionadas sobre títulos de momentos passados e romance barato para a graça de sua autora que gosta de passar o tempo livre dormindo e acumulando rascunhos no bloco de notas, tal como músicas velhas de CityPop na playlist.
Seguimos de portas abertas e lugares vagos para os curiosos de plantão desde maio de 2015. ★



arquivos gerais

※ fanfictions e marcadores

Pertencem a autora as ideias, poemas, universos e tramas que compõem suas fanfictions; os personagens utilizados nestas pertencendo a seus respectivos autores, assim como grande parte das imagens utilizadas para ilustrar postagens e capas. Algumas de suas produções fictícias podem ser facilmente encontradas no +Fiction, Spirit Fanfics assim como no ao3 (en inglês) também. ★



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※ blogues singulares e os créditos
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agradecer e se abrir para o novo.