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Os contos da raposa e da serpente

※ 26 de dezembro de 2021 (10:54 PM) + comentários (2)
Rou! Rou! Rou! Leitores e membros não tão ativos deste modesto clube de artes, como estão neste belo último domingo de dezembro? Devo dizer que estou muitíssimo bem, mas pensar em um título inteligente que dissesse tudo e não escondesse nada foi um tico chatinho então optei por fazer algo que faço bem, não deixar claro o que pretendo com ele (ou quase isso) já que mais uma vez (e isso já deveria ser ó-b-v-i-o) venho trazer alguns dos meus tralhas rascunhos mais recentes e como estas belezinhas são todas do mesmo título, assim como do mesmo shipp... pra que separar tudo em três postagens se eu podia muito bem juntar tudo e finalmente - fi nal men tew - publicar todos os rascunhos que ainda me sobravam, não?

Sim, leitores, vocês estão presenciando um momento histórico no Doukyuusei. Eu, Snow, finalmente publiquei todas as fanfictions que tinha rascunhadas... o que eu faço com a minha vida agora gente!?

"Por mais que a raposa fuja, a serpente sempre acaba a encontrando no fim"

  • tesouro
  • izumo kamiki x renzo shima
  • ao no exorcist
  • 2.493 palavras
  • Se eu disser que enquanto escrevia esse rascunho a intro de "Treasure" tocava infinitamente na minha cabeça e eu ria para um caramba, espero que isso seja de alguma valia pois huh, essa daqui surgiu mais como uma exploração sobre o último momento que Izumo teve com sua mãe - que eu achei lindo para um caramba também!

Já era verão novamente. A neve cobrindo toda a vista e o frio da última estação finalmente encontraram seu fim temporário, enquanto que com ele uma guerra também se encerrara, e ela torcia para que dessa vez fosse algo definitivo - sem parcelas, apenas o ponto final merecido - ver o fim da organização que a privara da liberdade de escolha por cinco longos anos de sua vida era realmente um alívio, um consolo em saber que isso não se repetiria com ela, nem com ninguém, e que sua irmã mais nova estaria livre de problemas. Que ambas poderiam viver suas vidas em segurança.

Mesmo que o resultado disso fosse ela estar completamente sozinha.

Sem sua mãe, ou sua irmã.

Doía saber que Tsukumo estava viva e saudável e feliz, mas que não se lembrava mais dela. Sequer reconhecera seu rosto. Que a vida que tivera com ela e guardava em seu peito como uma promessa de um futuro melhor já não existia, pois a vida que Tsukumo tinha agora, onde desfrutava de tudo aquilo que ela adoraria poder ter dado de bom grado, era com outro nome e com outra família.

Decidir não confiar em ninguém por cinco anos a fizera petrificar um momento feliz que nunca mais voltaria, tão pouco seria dela novamente.

Ao menos a guerra fizera com que ela colocasse para fora todo o rancor que acumulara em seu peito, a deixando vazia por dentro, ao menos vazia de motivo pois seu propósito maior já havia sido cumprido.

E mais uma vez ela voltara para Kyoto na companhia de seus colegas de classe, dessa vez para um descanso merecido. Ao menos a família de Suguro parecia contente em recebê-los novamente.

E ela se encontrava sozinha mais uma vez. Não solitária, apenas sozinha. Sozinha consigo mesma e com seus pensamentos, distante de toda a energia que seus colegas traziam consigo. Naquele momento ela só queria um momento para si e a realidade que mais uma vez a surpreendera.

Mas em um lugar tão cheio de vida seria difícil estar sozinha por muito tempo.

Uma porta correra, o som da madeira deslizando facilmente, revelando Suguro do outro lado com duas latinhas, uma em cada uma das mãos.

— Me disseram que estava aqui fora.

— E não queria ser perturbada.

Ele lhe oferecera uma das latas, o suor correndo pela superfície metálica.

— Pensei que fosse querer um refresco.

— Obrigada Bon.

O tom de brincadeira que ela colocara em seu apelido, fizera com que o rosto dele ficasse vermelho.

— Ora! Deixe disso!

Ela riu, cobrindo a boca com uma das mãos.

— É quase impossível.

Suguro balançou a cabeça, constrangido, enquanto se sentava ao lado dela. Ele parecia tão jovem sem aquele moicano dourado ridículo no topo da cabeça.

Por algum motivo, ela se sentia em débito com ele.

— Obrigado por ter atendido aquela ligação. Eu realmente não sabia o que fazer, estava tão assustada que não consegui pensar em como agir.

— Difícil de imaginar você assim-

— Ei!

— Mas eu pude ouvi-la desesperada, então acho que nada mais pode me surpreender nesse mundo.

— Nem mesmo Lewin Light?

Ele negou com a cabeça.

— É principalmente por causa dele que digo isso.

— Você que quis ser discípulo dele.

— É, mas não tem porquê me agradecer Izumo. Nós somos um time, não é mesmo?

Por um instante, o frio da lata intocada em suas mãos a fez se lembrar do passado, de quando ela não enxergava ninguém naquela classe. Só a si mesma.

Tanto acontecera depois daquilo, um ano se passara.

— É. Um time - ela abrira o lacre e bebera — é bom fazer parte de um time.

A risada de Suguro era rouca.

— Eu realmente prefiro você agora.

— Obrigada.

Seus olhos se encontraram, e na falta de palavras para dizer, Suguro afagou os fios escuros dela.

— Não se esqueça de que tem amigos com quem contar.

Izumo segurou o pulso sobre sua cabeça e o tirou do lugar, sem brutalidade alguma, apenas cuidado.

— Não vou me esquecer.

E ele poderia ter dito mais alguma coisa, prolongando aquela conversa boba, mas necessária, se alguém não o houvesse chamado de dentro da casa.

— Bon! Sua mãe 'tá te procurando - era Renzo.

— Mas eu acabei de falar com ela.

— Isso não é problema meu, só estou passando o recado.

— Francamente - ele se levantou batendo uma das mãos na bermuda que usava para depois voltar sua atenção a ela — aproveite enquanto está gelada.

E saiu por onde havia entrado, mas não sem antes dar um cascudo sobre a cabeça do rosado.

— E você? Vai ficar parado aí até quando?

— Achei que quisesse ficar sozinha.

— Mas parece que você não quer me deixar sozinha, não é?

O rapaz suspirou, indo de encontro a ela.

— Não é isso, eu só estava procurando o Bon, não sabia que ele estava com você

— Sei, então sente e fique quieto assim eu consigo um pouco de sossego.

E felizmente, naquele momento, ele a escutara e ficara em silêncio, nem mesmo o piso de madeira emitira som algum quando ele se sentou ao lado dela, com ambas as mãos sustentando o corpo, seu rosto fitava o céu aberto e claro, repleto de nuvens branquinhas feito algodão doce e ela acabara por seguir o exemplo dele.

Sua mente divagava sobre o que fazer dali em diante já que agora, ela não tinha mais o mesmo motivo para se levantar da cama que meses atrás e isso, isso era diferente. Diferente de ter de lidar com dois tipos de perda, uma seguida da outra. Diferente pois com aquelas perdas, ela perdera seu maior motivo de pertencer e graças a esse infeliz motivo ela agora estava completamente livre.

Livre para fazer o que bem quisesse e como bem quisesse e nossa, que sentimento estranho era aquele.

De olhar para o céu e observar as nuvens, livres, deslizando pela tela em tom azul clarinho e entender firmemente o que aquilo significava. De se desprender completamente das raízes que a mantiveram firme em terra por tanto tempo para enfim criar as suas próprias - mas quem diria que criar raízes fosse tão desconfortante

As vezes o solo não era bom o suficiente e o tempo não colaborava para o plantio.

As vezes ela apenas sentia verdadeiramente a falta que em tempos passados fora preenchida pela presença de sua mãe e irmã, para assim reconhecer o vazio que elas haviam deixado ali dentro, quando a deixaram para trás, e doía tanto. Apenas doía reconhecer esse sentimento, ter noção de que ele existia para enfim doer mais uma vez.

E manter a mesma expressão por muito tempo era difícil, porque ela era transparente demais para esconder emoções como aquela.

Por isso Izumo passava mais tempo sozinha, mesmo tendo seus amigos por perto.

— Você não 'tá séria hoje.

— O que?

— Séria. Você sempre franze o cenho, como se estivesse sempre brava com alguém, mas hoje você não 'tá assim.

Ela deu de ombros.

— Eu não tenho motivos para estar brava com alguém.

— Nem mesmo eu?

— Eu não tenho porque ficar brava com você, eu sinto repulsa, é diferente.

E ele negou com a cabeça.

— Então o que aconteceu de diferente para essa mudança?

Izumo terminara de beber o líquido que havia dentro da latinha.

— Estive pensando na minha família, e como não tenho nenhuma agora.

— Você parece o Koneko falando desse jeito.

Ela apenas inclinou a cabeça, como se perguntasse o motivo apenas com esse gesto, o que motivara Renzo a continuar.

— Ele fica assim quando visita o túmulo da família dele, honestamente teria sido bem mais fácil se eu fosse ele, assim não precisaria ficar preso aqui por mais tempo.

— A sua família.

— É - ele suspirou voltando a observar as nuvens — seria mais simples se eu não tivesse eles no meu pé o tempo inteiro.

— Eu acho que ter uma família para quem voltar não é de todo ruim.

Ugh, nós realmente não somos parecidos.

Ela rira, rolando a lata vazia entre as mãos... talvez ele não reconhecesse o sentimento ainda...

— Já disse que somos parecidos, você só está alguns passos atrás de mim, já que ainda não perdeu alguém importante.

— Não acho que faria diferença.

— Sério? Então imagine como seria perder uma pessoa próxima de você, alguém que você veja todos os dias, só imagine acordar um dia e não ter mais essa pessoa por perto.

E por alguns minutos Renzo se calara, a observando criticamente para depois observar o gramado da pousada que pertencia a mão de Suguro.

Então ela decidira dizer mais algumas palavras.

— Por um momento, eu pensei que poderia ter a minha irmãzinha de volta, que poderia voltar a ter uma vida com ela, mas ela nem se lembra mais de mim - ela puxara um cordão que estava embaixo de sua camiseta estampada com flores ornamentais, uma chave dourada no final dele — e essa chave idiota não presta pra mais nada e ainda assim, eu guardo ela, como uma certeza de que ela vai estar bem, mesmo longe de mim e você, seu cretino idiota - continuou se inclinando e puxando um punhado de fios cor de rosa no topo da cabeça dele — tem uma família enorme por perto e ainda reclama de barriga cheia!

— Você diz isso porque não é você que é vista como a sombra do filho pródigo da família! E mesmo assim eu nem posso ter uma vida longe deles, por que conseguir isso é tão difícil? Por que ser apenas eu é tão difícil?

Ela bufou, consternada.

Ao menos agora ele conseguira deixá-la irritada.

— Porque você é um idiota Shima!

— E você precisou quase morrer para perceber que tinha amigos, Izumo! Fantástico, não acha?

O vento mudara de direção, levantando mechas do cabelo de Izumo e bloqueando o contato visual que mantinha com ele, fazendo com que bufasse brevemente.

Aquela fora a primeira vez que ela discutira com ele verdadeiramente.

— É realmente fantástico, antes eu odiava a minha linhagem e agora ela é tudo o que me restou.

— Aquelas raposas, você quis dizer.

— Isso. Aquelas raposas.

— Pelo menos vocês se dão bem, Yamantaka só sabe querer briga o tempo todo, é um saco - ele fez uma careta desgostosa — Outra lembrança do incrível Take.

— Para ser sincera eu não me dava bem com eles, isso só mudou naquela noite, foi quando eu os vi com outros olhos.

Aquela noite ficaria gravada em sua memória por vários motivos, mas o mais significativo deles seriam aqueles voltados a sua família. Naquela noite seu mundo que já havia virado de cabeça para baixo acabara voltando ao eixo graças ao esforço de pessoas que se importavam com ela mais do que ela era capaz de retribuir, e agora ela só tentava retribuir o gesto da melhor maneira possível.

O sol começa a sumir no horizonte, seus raios refletidos nas nuvens sendo o único respingo de sua presença ali, mais um dia estava chegando ao fim e o momento de sossego que ela tanto desejava manter acabou não acontecendo da maneira imaginada.

Negando com a cabeça levemente ela notara a atenção silenciosa dele sobre ela.

— O que foi agora?

— Nada, só estava pensando que você realmente não tem ficado irritada ultimamente.

Izumo apenas arqueou uma das sobrancelhas, esperando que ele continuasse.

Renzo suspirou.

— Você mudou e isso me intriga.

— Eu não mudei, apenas não deixo mais que os meus problemas me incomodem. Só isso.

— Como?

A memória do abraço que sua mãe lhe dera as portas da morte parecia mais viva do que ela se lembrava. Nunca que ela imaginou que algo daquela magnitude fosse acontecer, sua mãe lhe dando aconchego, dizendo o quão importante ela - sua filha - era.

— Minha mãe, ela me mostrou isso. A minha resposta. Ela me libertou.

Os olhos dele aumentaram levemente em alerde, assim como as sobrancelhas que subiram para o alto da testa mas tal expressão surpresa sucedera na compreensão de um sorriso sincero.

— Agora entendi, uma pena que eu não pude ver isso acontecer de verdade. Acho que teria sido divertido ver você mudar aos poucos, notar isso agora é um tanto quanto chato.

— Idiota.

— Mas é verdade.

— Você precisa ser mais sincero sobre o que sente Shima, levar tudo na brincadeira só fará com que não te levem a sério.

— E escutar isso de você deveria me fazer sentir melhor?

Ela o encarou a beira do riso.

— Deveria. É claro que deveria afinal, nós somos semelhantes, não é mesmo?

Ele não respondeu.

Era estranho parar e pensar nos níveis de relações que ela vinha mantendo com os amigos que fizera na academia, e no quanto ela permitia se abrir em cada uma delas, e de todas a que tinha com Renzo era a mais incomum... de tão comum que era.

Izumo o detestava com todas as forças, mas não conseguia se manter distante dele por muito tempo.

— Renzo, você viu a minha mãe, todos a viram, mas estou curiosa sobre o que pensou sobre ela.

E em como ela dizia o que lhe vinha a mente facilmente.

— Acho que ela deve ter sido uma mulher muito bonita.

Ela se controlara tanto para dizer apenas o necessário, mas ele, assim como os outros, tinha um talento nato em apenas fazê-la sentir-se confortável.

— Você não tem limites mesmo.

Mesmo quando ela estava sobre uma pressão incrível.

— Só digo isso por você ser filha dela, digo, você é muito bonita Izumo, então sua mãe também deve ter sido.

Ter amigos, verdadeiros amigos, era algo incrível, realmente.

— Você ainda tem aquela chave?

Uma das mãos dele desaparecera no bolso da bermuda para voltar com uma chave envelhecida.

— Tem um lugar que eu quero te mostrar, vamos?

Os dois se levantaram e buscaram por uma porta que pudesse ser usada como portal para onde Izumo queria levá-lo, sem pensar muito nos comos ou porques, ela apenas decidira seguir um desejo que brotara dentro dela naquela tarde.

O de levar Renzo até onde sua mãe estava.

— Por que me trouxe aqui?

— Você foi o único que não esteve aqui naquele dia, só queria que estivesse agora.

— Para ver a lápide da sua mãe.

A mão dela deslizara pela superfície áspera e cinzenta.

— Você é o único que a viu, na verdade, os outros resolveram ficar na escadaria.

— Tá, mas por quê Izumo?

— É importante para mim, eu perdi alguém que eu amava e eu queria te mostrar isso.

Ele olhou os entalhos e fechou os olhos por um momento ou dois, quando os abrira novamente ele não a olhava, apenas encarava o verde que cercava o lugar.

— Pronto, você já fez o que queria. Satisfeita?

Ela assentira, levantando um dos indicadores.

— Só me diga uma coisa Renzo. Se detesta tanto a sua família e amigos, mesmo gostando deles no fim, por que insistir tanto em mim? Você não vai cortar todos os laços desse jeito.

Um sorriso convencido, travesso até, se apossara da feição antes desconfortável dele, enquanto seu rosto se aproximava do dela.

— Eu sou louco por você Izumo, você é quase um tesouro 'pra mim.

  • memoir
  • izumo kamiki x renzo shima
  • ao no exorcist
  • 2.885 palavras
  • Escrevi a introdução dessa ao som de "Lost Time Memory" mas como não sabia como continuar, "Tears Will Dry" me deu aquele empurrãozinho necessário e bem, eu queria explorar mais a Yumi mesmo e dar um ar de irmã mais velha pra Izumo por tabela. Eu gostei do jeitinho dela (mesmo que tenha sido só um quadro haha).

Algo no vento dizia que o tempo iria mudar bruscamente, e logo, se não bastassem as nuvens cinzentas e as ruas molhadas como um forte indício da chuva que houvera pela manhã - mas estando na rua, fazendo compras que não eram para ela, Izumo torcia para que o vento apenas estivesse levando as nuvens para outro lugar e que nada molhasse o que tinha nas sacolas que lhe marcavam os dedos da mão.

Algumas passadas a frente havia uma senhora com mechas brancas no cabelo acompanhada de uma garotinha vestida em roupas cor de rosa, ambas carregando sacolas e de mãos dadas, enquanto que a menina contava o que lhe vinha a mente para a senhora que sorria, pedindo para que ela continuasse em suas palavras. E por algum motivo, ver aquelas duas estranhas em um belo momento de cumplicidade fizera com seu coração também ansiasse pelo mesmo, um momento, uma relação como aquela.

E como as duas seguiam pelo mesmo caminho que o dela rumo ao ryokan, ao menos por aquele momento seu coração poderia se aproveitar de tal anseio.

O chiado da guitarra se diluía, passando por seus fones de ouvido junto de um grito estridente até parar, como se ela estivesse no olho do furacão, observando o céu límpido e puro. Seus pés sob o chinelo de dedo sentiam claramente as ondulações do solo, das pequenas crateras formadas pelo uso da rua mas naquele momento, quando a música deu um suspiro de alívio, o som vindo de fora daquele aparelho de plástico ganhou um outro sentido. O vento forte passando por entre as folhas verdes das árvores naquela rua vazia, o céu azul com nuvens cinzentas anunciando a chuva que viria mais tarde, as folhas secas sendo levadas por aquela mesma corrente de ar, seu som seco se arrastando da calçada para a rua. Seu corpo parou, admirando aqueles breves segundos de beleza - as duas que seus olhos seguiam já tomando outro destino - até que a guitarra voltou a soar de forma frenética e a mesma voz estridente cantou o final da música.

Sua sacola de velas pouco pesava naquele momento, o incenso que havia se esquecido de comprar e voltara correndo assim que se lembrara, muito menos. Naqueles breves segundos ela apreciava a vida em seu curso mais puro.

E não havia nada mais belo.

Porém, seu destino não era aquele.

Izumo poderia até não ter mais um lar para chamar de seu mas a maneira como a família de Suguro sempre a recebera de braços abertos, apenas por ela ser uma amiga dele, era algo que fazia com que ela considerasse aquela estrutura no meio de Kyoto como seu mais novo lar. Era algo estranhamente revigorante, ser chamada pelo nome por pessoas de fora do seu círculo familiar, dirá o de amizades.

Assim como era estranho para ela passar a se sentir segura em um lugar como aquele.

Se sentir segura novamente era estranho, uma noção que lhe pregava peças quando se descuidava.

Mesmo que já não houvessem motivos a provando do contrário.

Mas seus monólogos internos acabaram sendo interrompidos quando ela avistara uma figura escondida próxima ao jardim - ao menos ela aparentava querer estar escondida - encolhida com a cabeça espremida sobre os joelhos, seu corpo tremia de um momento a outro e por mais que sua intenção de passar despercebida por ela não tenha sido das mais eficazes, Izumo não fugira quando ela notara sua presença levantando a cabeça, a olhando nos olhos.

E seus olhos estavam tão vermelhos quanto seu rosto.

Ela estava chorando, e muito.

Mas aquele não o detalhe mais desconcertante naquele momento, não, o detalhe que parecia estar brincando com a cara dela naquele momento era outro.

Aquela era uma das irmãs de Renzo.

O que a lembrava momentaneamente do motivo de ela estar ali, para passar mais do que alguns dias, na companhia dele.

"Se vamos dividir um teto é melhor contar 'pra eles pessoalmente, não quero que meu irmão fique me ligando por causa disso", fora o que ele lhe dissera, semanas antes de aparecer perguntando se ela gostaria de ir até Kyoto com ele e os amigos de infância. Haveria uma comemoração pelo terceiro ano de uma das filhas do Shima mais velho e aquele parecia ser um bom momento para que ele contasse da novidade.

Eles não morariam tão longe da academia, e o arranjo que fizeram estava mais para uma divisão de despesas de qualquer maneira.

E se haviam sentimentos aqui ou ali eles não eram comumente nomeados, ao menos, não por ela.

Porém, a garota não desviara os olhos dos dela por um instante sequer desde que a vira e por um breve instante, Izumo se lembrara do que sentira ao ver a senhora e a garotinha de minutos atrás.

A faixa alta e dançante que tocava fora perdendo importância conforme ela dava passos em direção a ela, que pareceu surpresa, mesmo sem demonstrar isso abertamente.

E quando se sentara ao lado dela, ela apenas continuara em sua observação, as sobrancelhas juntas no cenho.

— Como é mesmo o seu nome?

— Yumi, e você, quem é?

— Izumo, eu vim com um dos seus irmãos.

Ela inclinou a cabeça.

— Qual deles?

— Renzo.

— Ah, eu lembro de você, era uma das colegas dele e do Koneko.

— Isso mesmo.

Yumi deixara de olhá-la e mesmo sendo maior em estatura de quando a vira pela última vez, olhando para ela ali, encolhida, procurando se esconder dentro de si, fizera um sentimento que ela imaginava ter sido completamente esquecido com sua irmã dizendo que não se lembrava mais dela, voltar com força total.

Era como se ela quisesse protegê-la daquilo que a magoara.

— E qual o motivo de você estar aqui, Yumi?

Ela se demorara em responder.

E por algum motivo, ali, naquela tarde, em um dia de um mês qualquer no calendário, Izumo sentira a necessidade de agir como uma irmã mais velha.

— Você quer mesmo saber?

— Se não quisesse eu nem perguntava.

Um sorriso.

— Eu escutei uma das ligações que o Koneko vinha tendo desde que chegou aqui, e descobri que ele... bem... que ele tem uma namorada e isso... bem... isso me magoou mais do que eu imaginava.

— E você gosta dele..?

Um bico enorme tomara os lábios dela, seu corpo tremera mais um pouco e ela escondera o rosto. Resposta mais clara, impossível.

E se ela bem se lembrava, Renzo havia comentado algo sobre isso quando a turma deles viera para o casamento do Shima mais velho. Não de forma clara, mas ela se lembrava de ter escutado ele dizendo algo sobre a maneira como ela agia diante de Konekomaru Miwa.

Então vê-la daquele jeito era uma péssima notícia.

Provavelmente Yumi não só gostava dele...

Com o tempo de reação atrasado, ela colocara uma das mãos nas costas da garota magoada, procurando acalmá-la e aos poucos, o corpo dela deixara de tremer tanto.

Até enfim se acalmar.

Secando o rosto com ambos os lados das mãos, o nariz pequeno dela fungara mais uma vez, tentando respirar melhor e ao menos ali, ela parecia mais relaxada.

O que era algo positivo, pois assim Izumo também poderia se acalmar, ao invés de tentar ajudá-la estando tão aflita quanto ela por não saber o quê fazer.

— Eu gosto dele. Muito. E isso vem de antes dele ir para a academia. O Koneko... ele é tão incrível e bondoso... mas não consegue enxergar isso nele mesmo, só nos outros, nem sei como ele acha o Ren incrível, ele é só um folgado!

— Nisso eu tenho que concordar.

— Não é? Meu irmão é tão relaxado que chega a doer!

E com o bom humor daquele comentário, Yumi sorrira, ao menos um pouco, o rosto vermelho ainda denunciava como ela estivera minutos atrás.

— Renzo tem suas qualidades para além do que ele mostra, acho que você deveria ter notado isso como irmã, não? Assim como percebeu com o Miwa.

Ela negou com a cabeça.

— Os dois são totalmente diferentes.

— E você só enxerga as qualidades de um e os defeitos do outro.

— Você não 'tá ajudando, sabia?

Izumo sentira uma veia pulsar em algum canto de sua testa, aquelas palavras a lembrando de tantas outras que lera em seus romances juvenis...

A diferença é que romances eram fictícios e o drama daquela garota era real demais para ela sustentar.

— Só porque você não me contou o resto da história, oras! Como eu posso dizer algo se você só me disse que é apaixonada pelo Miwa e que descobrir que ele tem uma namorada te deixou magoada? Aliás, ele tem namorada? Como ele consegue ser tão discreto?

Yumi fez uma careta.

— Eu não sei o que fazer com o que sinto agora, é estranho, eu ainda quero ver ele, estar perto dele, sentir o cheiro dele mas isso... não faz mais tanto sentido como costumava fazer...

Cheiro?

Automaticamente os olhos de Izumo caíram sobre a sacola parcialmente esquecida a seus pés, observando a caixinha de incenso que, mesmo aquela distância ainda exalava um aroma delicioso e agradável ao seu olfato.

Por um instante Yumi a lembrou um pouco de Renzo.

— Isso significa que você já não reconhece mais esses sentimentos como seus, você está amadurecendo Yumi, só isso.

— Não pode ser tão simples, antes eu pensava em morrer se não fosse passar o resto da minha vida com ele.

— Mas se esqueceu de que você ainda estava crescendo e que poderia mudar de ideia sobre isso mais a frente.

O vermelho no rosto dela deixara de ser tão vibrante agora, mas ela ainda parecia confusa sobre o que ouvira.

E aquele anseio que sentira mais cedo voltara com força total ao coração de Izumo, que via naquele momento, algo que não poderia ter com sua irmã.

— Infelizmente, você não pode controlar o que as pessoas pensam ou sentem sobre você, Yumi.

As palavras saíam mais fáceis do que foram assimiladas por ela, a fazendo pensar no quão duro fora apenas superar seus anos em sofrimento por algo que nem sequer existia de verdade. Mesmo tendo se esforçado, lutado em nome da segurança de sua irmã, ela já não corria perigo - assim como os sentimentos tão intensos daquela garota poderiam ser colocados em outro lugar, não em nome de alguém que não poderia retribuí-los na mesma moeda.

Izumo só queria que alguém na mesma situação em que ela estivera pudesse ter um conselho, uma palavra que ela nunca tivera.

Uma chance de poder olhar sua realidade de uma forma diferente.

As lágrimas descendo pelos olhos castanhos diziam mais que os soluços dela, que o rosto menos avermelhado. Eram sinceridade estampada, algo que ela pouco se dava o luxo de sentir e, enquanto seus braços colocavam o corpo magro num abraço desajeitado, dando conforto, pelo canto do olho ela conseguiu encontrar Renzo a olhando com uma expressão azeda.

Mas ele não ficara muito tempo para ver o final da conversa.

— O que eu faço agora? Eu nem sei o que fazer, eu só consigo pensar nele.

— Você segue em frente, o que mais quer fazer?

Ela se desvencilhou de seus braços o suficiente para encara-la nos olhos.

— Esquecer ele.

Um sorriso se abriu em Izumo.

— Então esse é o seu primeiro passo. Esqueça ele.

Somente depois desse momento divido entre as duas, que ela se atentara a figura de Suguro a procura dela - praticamente bufando pela demora que causara nos ritos dele.


Já era tarde quando ela decidira observar o céu novamente, o período noturno fazendo com que sua percepção sobre o clima durante a tarde se tornasse mais evidente com os pouquíssimos pontinhos brilhantes escapando por entre as nuvens pesadas. Sentado no lado de fora, de costas para ela, Renzo parecia alguém quase que completamente diferente se comparando aos trejeitos que ele sempre vestia quando a observava.

O calor do dia já não existia, apenas o vento frio e o céu em caminho de se tornar completamente escuro permaneciam. A chuva ainda viria.

— O que você 'tá fazendo aqui?

— Para ver o céu, e você?

— 'Pra não ver você.

O ar lhe escapara brevemente, fazendo com que ela risse sem que quisesse realmente.

Por vezes ela duvidara do interesse dele por sua figura, genuíno ou não, era algo que por vezes a deixou confusa entretanto, ali ela conseguia entender os motivos dele com mais facilidade.

Então ela apenas se sentara ao lado dele, olhando para cima.

— Você pode até agir desse jeito, mas ainda me lembra muito da sua irmã.

— Como?

— Os dois são muito dedicados, quando se doam a alguém.

— Eu, dedicado? Tem certeza, Izumo?

— Ainda tem a audácia de duvidar de mim? Logo a pessoa a quem você mais se doou?

Ele apenas grunhiu em resposta, completamente contrariado.

— Pensei que ficaria feliz em ser comparado com uma garota, não foi você mesmo que disse detestar os homens e amar as mulheres?

— 'Tá, você 'tá certa. Satisfeita?

— Não sinta ciúmes da sua própria irmã.

O som de uma porta correndo quebrara qualquer fluxo de indiretas vinda dentre os dois, dando espaço para que alguém entrasse em cena. Muito além de apenas observar o jovem par discutindo miudezas, a mulher decidira participar daquele pequeno e singelo momento.

Aos olhos de Izumo, a mulher em roupas tradicionais parecia etérea, como se uma pintura se locomovesse languida e belamente em sua direção.

Já para Renzo, aquela que sorria contidamente era apenas um lembrete - uma nota que o fazia se questionar os motivos em querer ser independente.

— Então era aqui que vocês estavam.

De deixar sua família para trás e viver uma vida que fosse apenas sua.

E a medida que ele perguntava "o que você 'tá fazendo aqui, mãe?", quase que completamente desconfortável, os olhos de Izumo aumentavam de tamanho, olhando entre mãe e filho, se perguntando em seguida como aquelas duas pessoas poderiam estar relacionados dessa maneira.

— Seu pai disse que ficaria mais tempo aqui, então decidi vir e fazer companhia a minha família.

— Por isso que a Yumi veio então.

— Sim, mas ela ficou muito triste depois de um dia aqui, ela sempre foi tão alegre, nunca imaginei que a veria tão murcha daquele jeito tão cedo. Mas depois de ter conversado com uma certa pessoa, ela pareceu melhorar.

Izumo sentiu seu rosto começar a esquentar, principalmente quando a mulher se sentara perto dos dois.

— E você é a sacerdotisa Inari que conquistou o coração do meu Renzo, e acalmou o da minha Yumi?

Ela negou com a cabeça.

— Eu nunca fui uma sacerdotisa de verdade, minha mãe quem era.

— Então como aqueles dois ainda estão com você?

— Quem são aqueles dois?

Aqueles dois são as entidades do templo ao qual a minha família servia, e eles prometeram que ficariam comigo depois do que aconteceu com a minha mãe.

O rosto da mulher pareceu se iluminar.

— Assim como o meu Renzo tem Yamantaka como familiar?

— Isso, exatamente. Quer conhecê-los?

— Se não fosse incômodo, seria ótimo.

Se fosse honesta consigo mesma, Izumo não queria que ela conhecesse seus familiares tão cedo mas também, aquela era a matriarca dos Shima, a mãe de Renzo. Aquele Renzo. Aquele idiota que estava encarando ela como se aquela fosse a primeira vez que a visse, então ela queria causar uma boa impressão.

Mesmo que Uke e Mike aparecessem da mesma maneira, como sempre apareciam.

Incomodados por terem sido chamados em um momento totalmente inconveniente por sua domadora.

"Izumo tem noção de que dia é hoje?", reclamou Mike sentando em seu lado direito.

— Oferendas, certo? Onde está o Uke?

"Desculpe o atraso Izumo, por que nos chamou?", perguntou Uke acomodando-se do outro lado.

— Queria que uma pessoa conhecesse vocês. Uke, Mike, esta é a matriarca dos Shima.

As duas raposas sobrenaturais observaram a mulher disposta ao lado do rosado constrangido, procurando nela algo que se assemelhasse ao filho, mas não encontrando nada quantitativo sobre.

Exceto pela beleza dela, que encantou Uke quase que por completo - em poucos minutos ele se dispusera a frente da mulher, como se pedisse por afago, enquanto Mike grunhia ao lado de Izumo.

Mas tal cena não diminuíra o descontentamento dele.

— O que você tá fazendo aqui fora mãe?

— O jantar já foi servido, estava preocupada por você não ter aparecido, mas Suguro me disse que você poderia estar aqui fora então pedi para deixarem a sua porção separada, assim como a sua também Kamiki.

Os dois se olharam brevemente, sem saber o que dizer. Izumo até mesmo emitira um curto "ah" que mal fora escutado com certeza e ela somente saíra desse estado curto de inação com a voz irritadiça de Mike, ecoando ao seu redor.

"Agradeça garota."

E foi o que ela fez, mesmo sendo estranho ver uma mulher transbordando gentileza sobre ela, que aquela altura, ainda era apenas uma estranha - uma colega de classe de seu filho mais novo.

Naquele momento em que observava a mãe de Renzo se levantando calmamente, enquanto agradecia pela presença dela na vida de seus filhos, a jovem exorcista teve uma noção mais concreta do que viria a ser uma figura feminina, ao menos uma que ela sonhava quando sua mãe só lhe causava dores de cabeça.

E como aquele pensamento a fez sentir falta de sua própria família.

Mas aquele não era o lugar, muito menos o momento de deixar suas lágrimas escaparem.

  • 1+1
  • izumo kamiki x renzo shima
  • ao no exorcist
  • 2.950 palavras
  • Hmmm... eu não me lembro qual era a ideia original dessa aqui... talvez algo em torno de uma soma de unidades... sabe... por isso do título ser uma soma... mas acabei mudando quando não consegui produzir algo agradável e esse resultado que surgiu graças a "So Amazing" me agradou muito! Adorei imaginar o Renzo como um irmão zeloso que aprende a fazer tranças por causa da irmã mais nova!

A tela negra de seu celular acendera sobre a pequena mesa de centro, distraindo sua atenção do televisor, acompanhado de um toque do qual ela não recordava e um ícone saltando no ecrã brilhante. Provavelmente uma mensagem, o que lhe era estranho. Checando o remetente, seus olhos surpresos se voltaram para aquele com quem dividia o sofá na sala de estar naquele fim de tarde, para depois retornarem sua atenção a tela do celular mais uma vez. Curiosa sobre o motivo tão repentino de uma mensagem daquela garota.

Era Yumi Shima.

— Quem é dessa vez?

— Yumi.

A irmã mais nova de Renzo.

— O que ela quer com você?

— Se você me deixar ler a mensagem, vou descobrir.

E passando seus olhos sobre os pequenos balões de cor lilás que saltavam em um plano de fundo estrelado, Izumo notou o motivo da garota ter lhe mandado uma mensagem de texto, ao invés de ter feito uma ligação como normalmente fazia. Nos períodos em que o irmão não estaria na casa, de preferência.

Sentimentos não correspondidos. De novo.

— Desde quando você e a Yumi conversam?

— Desde a última vez que fomos para Kyoto.

Aquilo trouxera uma careta ao rosto dele.

— E por que ela não fala comigo?

— Talvez porque ela saiba o quão idiota o irmão dela consegue ser.

— Muito engraçado Izumo. Sobre o que é a mensagem?

Antes que ele pudesse ler algo, a tela do celular voltara a ser escura com um clique rápido.

— Não te interessa.

— Como você consegue manter segredos com a minha irmã, quando você é uma péssima confidente?

— Eu sou uma ótima confidente, ao menos uma melhor do que você.

— Claro, por que em você as pessoas confiam, né?

— Mais do que em você, com certeza.

Outra notificação soara, tomando a atenção dela e encerrando brevemente a discussão sobre quem era o pior em o quê. Por mais que ela não houvesse conseguido tempo o suficiente em omitir completamente sobre o quê se tratava a conversa, quando uma sombra atrás dela fez com que o brilho adaptável da tela escurecesse, mostrando que Renzo estava lendo avidamente as mensagens.

Depois disso, pode sentir ele colocando todo o seu peso do outro lado do sofá, soltando um suspiro pesado e incomodado.

— Ela não muda.

— Seria bom se você deixasse de vê-la desse jeito.

— E por que você acha isso?

Seus dedos se ocuparam em digitar uma resposta.

— Porque ela já mudou, e muito.

O olhar que Izumo tinha com o celular em mãos era um daqueles que ele via raramente, carregado de um sentimento que ela despejava sobre aqueles de quem gostava, se importava.

Ela dificilmente direcionara aquele olhar para ele.

— Nem pense em roubar a minha irmã.

Mas ela pouco se importara com a declaração.

— Deve ser difícil crescer com irmãos.

Com o polegar deslizando sobre a tela escura Izumo parecia perdida em seus pensamentos, o olhar caridoso persistia mas parecia triste. Como se ela sentisse falta de algo que a muito não tinha e houvesse desaprendido como era ter.

Suas sobrancelhas se juntavam em incômodo e ele não gostava de quando isso acontecia.

Suspirando mais uma vez, enquanto se acomodava melhor no sofá que dividiam, Renzo colocou o corpo dela de costas ao dele, tomando o cuidado de não tirá-la completamente do estado no qual estava - imaginando que em algum momento ela o retalharia pelo ato como era de costume, por mais que parecesse indiferente a ele naquele momento.

Izumo não estava completamente alheia a ele, mas sua mente parecia pregar-lhe peças naquele momento. Imaginando como sua vida poderia ter sido caso ainda possuísse uma família para a qual regressar nas datas comemorativas, nos aniversários. Uma mãe para a qual ligar nos momentos de crise, uma irmã para acolher e abraçar... mesmo não podendo desfrutar de nada disso naquele momento. Caso pudesse ela não estaria ali, e muito provavelmente nunca teria conhecido Renzo de fato, ou todos os outros amigos que fizera.

Poder sentir as mãos dele passando, uma de cada lado, por sua cintura e trazendo seu corpo para perto do dele fora como ter levado um choque depois de colocar o dedo em um fio desencapado. Com arrepios correndo por seu corpo em euforia, conforme seus dedos pareciam se aproveitar daquele momento, a tirando parcialmente do estado ao qual sua mente a impusera.

Ela não disse uma palavra tão pouco esboçara som algum ao sentir seu corpo tão próximo ao dele.

Era uma sensação única a de se estar tão próxima a alguém, o mínimo movimento resultava em contato, o que fazia da experiência algo estimulante mesmo que por anos ela pensasse o contrário disso.

Aos poucos, como se esperasse por uma cotovelada ou qualquer outro tipo de reação vinda dela, Renzo se pôs a colocar em prática um desejo que guardava consigo mas dificilmente encontrava oportunidades para fazê-lo real. De forma ágil e habilidosa, seus dedos soltaram o elástico que prendia o cabelo de Izumo em um coque mal feito, deixando suas longas madeixas livres de qualquer controle e, antes que ela pudesse formular algo para dizer sobre o gesto inesperado, uma nova mensagem surgira, seguida de mais duas emitindo o apito frenético ao qual ela sempre se esquecia de trocar, ou apenas mutar completamente.

Enquanto digitava uma resposta, ela pode sentir a mecha superior seu cabelo ser separada do resto e dividida em duas, com uma sendo presa pelo elástico de estrelas douradas. Depois disso a delicadeza dos dedos de Renzo se mostrara através das poucas vezes que ela sentira seu couro cabeludo sendo fisgado na concepção de algo que ela desconhecia.

Não que ela desgostasse de ter seu cabelo nas mãos de outra pessoa, mas sendo ele as vezes ela sentia um dedinho de preocupação comendo seu nervosismo na base de sua cabeça.

— O que você está fazendo agora?

— Tranças.

— Não sabia dessa capacidade sua.

— Yumi gostava de tranças, mas nem sempre a Jun conseguia tempo pra fazer, então ela pedia pra mim e eu tive que aprender.

— Mas o cabelo dela não é curto demais para isso?

Ele cessara seus movimentos, soltando um suspiro.

— Ela é minha irmã Izumo, você acha mesmo que o cabelo dela sempre foi curto?

— Sim? Meu cabelo sempre foi longo e eu não cortava muito.

Outro suspiro, então seus fios voltaram a ser trançados, conforme ela os sentia sendo direcionados de um lado a outro.

— Vocês estão conversando, pergunte 'pra ela. Preguiçosa.

— Ei! - e ela continuaria sua reclamação se não fosse por outra mensagem.

Sendo assim, mordendo a parte interna da bochecha, Izumo perguntou a garota apaixonada por mais detalhes sobre uma das habilidades secretas de Renzo que ele pouco se importara em dividir. E era realmente verdade. Ele estava sendo sincero com ela, algo que vinha fazendo muito recentemente, sendo sincero sobre o que tinha em mente. Sem mentiras, nem meias verdades. Apenas honestidade. Não que ele nunca houvesse sido honesto com ela, mas por experiência Izumo sabia que ele nem sempre dizia algo só por dizer. A primeira vista Renzo poderia se passar facilmente por um folgado preguiçoso que detestava obrigações, mas guardava outras intenções além desta - fazendo dele um grande duas caras.

— Ela disse que é verdade. Por que deixou o cabelo curto então?

Se Izumo tivesse olhos atrás da cabeça, poderia ter visto ele fazendo uma careta desgostosa.

— Koneko. Ela cortou pra chamar a atenção dele.

Fora a vez dela fazer uma careta.

— E não funcionou.

— Não mesmo. Depois disso eu deixei de ser necessário para ela.

Seu tom de voz transparecia melancolia em ter perdido a atenção da irmã, enquanto a outra parte de seu cabelo era trabalhada.

Um silêncio inquieto tomara a sala, sendo dissolvido pelas bolhas estouradas a cada nova mensagem que chegava.

— Você gostava de fazer tranças?

— Gostava, era legal ter algo para poder chamar a atenção das garotas.

— Cretino.

— Mas nenhuma chegava perto de mim pela minha personalidade..? É deve ter sido isso, mas era legal fazer algo pela Yumi. Ela era mais fofa do que é hoje, ao menos.

— E você só gosta de garotas fofas...

— Mas você é fofa Izumo! Aqui me empresta seu pulso.

Ela mal teve tempo de resposta, quando notou o toque dele pegando uma das mãos que usava para segurar e digitar pelo celular, tirando em seguida um dos elásticos que carregava no pulso. Depois disso tudo que sentira fora uma leve fisgada nos fios rentes a sua franja, enquanto a mão que ele segurara ficara esquecida em seu colo, a caixa de mensagens deixara de apitar por um momento ou dois e então, um par de pesos fora sentido atrás de sua cabeça, com ele anunciando o fim de seu trabalho manual.

— Que tipo de trança você fez? A maior parte do cabelo ficou solto.

E ela não se sentia fofa, como ele sempre conseguia dizer isso com tanta facilidade?

Como resposta ele apenas deu um sorriso travesso que ela não pode ver, pegando o celular de sua mão em seguida para assim, fora do seu campo de visão o som de uma foto sendo tirada ser ouvido, e pela demora em alguma coisa diferente disso acontecer, ele provavelmente estava aprontando alguma - até que o aparelho voltou para suas mãos e ela pode ver o que ele havia realmente feito.

Talvez dado ao momento que compartilhavam, ele sentira a liberdade de abraçá-la pela cintura.

O par de tranças não prendiam seu cabelo exatamente, eles apenas decoravam sua cabeça caindo em uma cascata muito bem tramada de fios - seus elásticos favoritos deixavam o esforço dele estranhamente bonito de se admirar, por mais que não fosse algo que ela pensasse em usar com frequência. Abaixo da foto, ainda na conversa que ela mantinha com Yumi, seguia um texto dele provocando a irmã.

— Bonito né?

Sua voz parecia tranquila e acomodada ao pé do ouvido, causando uma corrente ingrata de arrepios.

— É, bonito mesmo. Lindo na verdade. Você é bom nisso.

Ele não disse nada em troca, provavelmente não imaginava que ela fosse concordar tão facilmente com o que ele havia dito, mas os braços em torno de sua cintura se apertaram a medida que ele escondia o rosto entre seu pescoço, a ponta do nariz buscando pelo contato com a pele dentre os fios escuros.

Até que a troca de mensagens na tela fosse substituída por uma ligação de Yumi.

Izumo mau atendeu a chamada para a voz estridente da garota ser ouvida claramente, mesmo sem o viva voz ter sido ativado, pegando os dois de surpresa.

"REN!! SEU SATÃRADO!! VOCÊ NUNCA FEZ TRANÇAS ASSIM PRA MIM!!!"

Despois disso ela apenas ativara a opção e o falante de seu celular pareceu voltar a funcionar normalmente.

— Por que você não gostava quando eu fazia assim, Yumi. Dizia que elas ficavam feias, lembra?

"Mas agora eu gosto..."

— Sei, e você é tão de lua quanto a mãe quando gosta de algo.

"Mas Ren... por favor... você é o melhor irmão de todos"

— Não vai ser tão fácil me convencer dessa vez.

"Você só tá fazendo isso 'pra impressionar a Izumo que eu sei, para de ser tão chato!"

— Você que é chata!

Izumo parecia se divertir com a discussão, visto o quanto segurava seu riso enquanto o escutava claramente em seu ombro respondendo a irmã na mesma moeda - uma situação bem diferente da qual estava acostumada a ver quando ele estava em família. Em momentos assim, ou Renzo se excluía de todos, ou era chutado por aquele barulhento.

Como era o nome dele mesmo...?

"EI! YUMI! COM QUEM VOCÊ 'TÁ FALANDO!?"

Uma voz tão estridente quando a da garota surgira ao fundo, impaciente.

"RENZOU!? POR QUE VOCÊ 'TÁ FALANDO COM AQUELE FRACOTE MEDROSO!!?"

Ela conhecia aquela voz, era a do Shima barulhento.

Aquele loiro barulhento e mal educado com uma banda de rock que ela não lembrava do nome...

Mas o único show que havia visto da banda tinha sido bom ao menos...

Mas qual era o nome dele mesmo...?

"EI!! RENZOU!! QUANDO VOCÊ VAI DEIXAR DE SER IDIOTA E PEDIR A KOZUMO EM CASAMENTO!? VOCÊ É MAIS FRACO QUE O JUN-"

Seus dedos agiram rápido, encerrando a ligação no ato.

— É Izumo, mas você não se importa com isso também.

O celular caíra no espaço que existia entre suas pernas, depois ela se desculparia com a garota, ela entenderia com certeza mas agora, naquele momento... naquele momento Izumo respirava como quando o fazia antes de recitar um sutra longo, que acabaria completamente com sua energia vital no fim do processo.

Talvez não fosse uma má ideia chamar Uke e Mike para ajudá-la naquele momento pois, ao invés de se sentir feliz, contente, ou qualquer outra emoção positiva que alguém poderia sentir a menção de "ser pedida em casamento", ela parecia ter entrado numa pilha de nervos da qual não sabia como sair.

Muito menos como havia caído nela.

Mas uma coisa de cada vez.

— Desde quando você planejava isso, seu verme?

— Eu não planejei nada, o Kin que só vê o que ele quer!

— Desde quando Renzo?

— Izumo, eu não ia dizer nada! Foi só coisa da cabeça dele e-

— Desde. Quando. Renzo?

Fora a vez dele respirar profundamente.

E depois fazer com que ela o olhasse nos olhos.

— Desde a última vez que fomos para Kyoto. Eu só estava conversando com ele e ele teve essa ideia brilhante de casamento. Ele também disse que você era a melhor opção 'pra mim, ou algo assim, ele fala muita coisa que não faz sentido junto por isso não levei tão a sério. Eu só não esperava que você fosse ouvir isso um dia afinal, a gente não tem nada mesmo, né?

Aquele dia poderia ter terminado sem a aparição repentina de Kinzo e suas pérolas de sabedoria desbalanceadas nos momentos mais inoportunos. Se não fosse por aquilo, seu dia teria sido incrível. Maravilhoso. Fora de série.

Mas fora de série era o quão descontente a expressão de Izumo conseguia ser naquele momento, o olhando entre a pura ira e algo que ele julgaria adorável em outro momento.

— A gente não tem nada mesmo? Então o que vivemos até agora, até esse momento, não significou nada para você? Seu cretino asqueroso!

— Não foi isso que eu quis dizer e você sabe disso Izumo. Você não sente nada especial por mim, é isso o que nada significa, não tem como eu pedir de você algo que você não pode me dar!

E agora que ele tinha começado, seria difícil contornar e fingir que nada havia acontecido.

"Idiota, você entendeu tudo errado. Sem paixão, você nunca irá impressionar ninguém", ao menos agora as palavras de Kinzo lhe faziam sentido.

Naquele momento, ele não tinha como fingir, como esconder aquilo que sentia por ela.

— Mesmo depois de tudo o que eu fiz 'pra te mostrar que eu posso ser diferente, que o que passou, passou, você ainda insiste em não ver isso. Você não enxerga nada do que eu tenho feito ou você só finge que não vê? Eu gosto de você, Izumo. Eu sou apaixonado por você, mas você ainda me vê do mesmo jeito que via a anos atrás, você pode me chamar de cretino quantas vezes quiser mas isso não vai mudar em nada o que eu sinto, o que eu vejo em você.

Seu corpo deveria estar mais leve, ele deveria se sentir mais leve, mas ainda faltava algo a ser dito.

— Quando você aceitou dividir o apartamento comigo, eu até pensei que estivesse no caminho certo. É por isso que o Kin me disse aquilo, porque isso 'tá na minha cara desde quando te conheci, eu só não queria que você ouvisse isso. Eu não queria te dizer isso porque eu te conheço Izumo.

"Eu te conheço tão bem que sei até onde você consegue ir", ficara implícito no espaço que existia entre os dois.

Mas até mesmo para ele, que tinha um olho além do normal para esses pequenos detalhes da personalidade dela, existiam momentos onde ela o surpreendia. Como naquele momento em especial, quando ela o olhou estarrecida, o cenho franzido e com os olhos mais brilhantes que o normal como se ali houvessem lágrimas prontas para cair a um mero desequilíbrio ou palavras mal mensuradas - mas que seguido de algumas piscadelas mudara novamente para a expressão neutra que ela sempre tinha lidando com os outros.

Então ele não vira mais nada que pudesse lhe dizer algo em sua expressão.

Tudo que seus olhos conseguiam ver era o topo da cabeça dela e as tranças que havia feitos minutos atrás.

Tudo o que rondava seus pensamentos eram claros sinais de alerta, sirenes tocando enquanto sentia os braços dela circundarem seu torso timidamente, tendo o rosto afundado em seu peito, como se aquilo a afastasse de se sentir constrangida.

Era uma sensação tão estranha que ele torcia para que seu corpo e mente tivessem tempo o suficiente para armazenarem aquele momento na memória.

E mesmo que não gostasse de elogios, Izumo era realmente fofa.

Gentil.

Delicada.

E direta como uma fecha

Esta era ela.

Izumo.

Izumo...

Izumo... ...

— Izumo.

Relutante e um tanto incerta, ela mostrara seu rosto, em sinal de que o escutara. As fendas claramente marcadas em sua testa a deixariam adorável se Renzo não detestasse vê-la daquele jeito, seu polegar agindo antes que pudesse realmente pensar no gesto, tentando suavizar a expressão no rosto dela.

Seus olhos apenas viam os dela, mantendo controle sob sua atenção.

— Você quer se casar comigo?

O abraço dela se tornara mais forte, a medida que um sorriso surgia em seu rosto.

— Não.

Então voltara a esconder o rosto em seu peito.

— Era o que eu esperava.

— Casamentos são sérios Renzou e você é tudo, menos sério.


Esses três rascunhos datam de meados do ano passado com meses ou semanas de distância e eu só me demorei em terminá-los por querer esperar para ver o que aconteceria na trama original, se a autora exploraria mais esses dois personagens em especial para que eu tivesse mais material para trabalhar... o que não aconteceu e aqui estamos... e não tenho realmente algo significativo para dizer além disso (a não ser que terminei de revisá-los agorinha a pouco), acho que já ficou bem óbvio que Renzo e Izumo acabaram ganhando uma dedicação minha comparada a de Soul e Maka e se isso significa alguma coisa... bem... é isso, esse ano não teve especial de natal mas eu me dei esse presentinho por ter passado uns meses fixada nesses dois heh, ao menos espero que alguém tenha gostado também _(:3 」∠)_

Por hora, agradeço a todos que me acompanharam nessa saga de produzir e publicar fanfictions e leram e deixaram seus pensamentos nessas belezinhas, pois podem ter certeza de que isso acabou me motivando a terminar esse desejo que carreguei por quase sete anos - e eu não tô emotiva, já chorei o suficiente essa semana, tchau!

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doukyuusei (bijutsubu)

※ o pseudo clube de artes da snow
Sinta-se bem vindo ao Doukyuusei, um clube de artes cibernético que de arte só tem o entusiasmo mesmo pois se encontra abarrotado de poesia, ruminações sobre a vida e universo, análises altamente emocionadas sobre títulos de momentos passados e romance barato para a graça de sua autora que gosta de passar o tempo livre dormindo e acumulando rascunhos no bloco de notas, tal como músicas velhas de CityPop na playlist.
Seguimos de portas abertas e lugares vagos para os curiosos de plantão desde maio de 2015. ★



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Pertencem a autora as ideias, poemas, universos e tramas que compõem suas fanfictions; os personagens utilizados nestas pertencendo a seus respectivos autores, assim como grande parte das imagens utilizadas para ilustrar postagens e capas. Algumas de suas produções fictícias podem ser facilmente encontradas no +Fiction, Spirit Fanfics assim como no ao3 (en inglês) também. ★



(atogaki) sotsugyousei

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que o universo te surpreenda. é hora de aceitar,
agradecer e se abrir para o novo.