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É chegado, enfim, o solstício de inverno

※ 21 de junho de 2022 (6:13 AM) + comentários (0)
Hoje é um ótimo dia para se começar a estação mais fria do ano, afinal estamos passando pelo solstício de inverno e eu pesquisei com cuidado antes de programar essa publicação, então tem que estar tudo certinho! Pois bem e o que isso muda na vida de vocês, na minha, para além da baixa temperatura e crises respiratórias que eu espero evitar passar por uma segunda vez nesse ano? Nada, mas calhou de eu ter uma daquelas ideias brilhantes e totalmente inesperadas relacionada a passagem das estações, justo quando pensei que já tinha feito o suficiente sobre o assunto, e me pus a dedicar um dia ou dois pensando sobre ela e dar forma a mais uma série de oneshots para este belo clube de artes não morrer pela falta destas.

Basicamente, inventei de dar personalidade as estações e descrever seus encontros durante os equinócios e solstícios ao longo do ano e, se a minha matemática ainda for razoável, termino ela em março do ano que vem! Espero que aproveitem a leitura e embarquem nessa esquisitice caso queiram.

  • vivacious
  • tempus autumnus x tempus hibernus
  • solstício de inverno
  • 2.094 palavras

Os pensamentos dela estavam urgentes demais para que eu conseguisse me assimilar completamente ao corpo, que por acaso suava frio mesmo estando coberto por uma enorme blusa de tricô em cor de abóbora e um sobretudo em tom terroso, as bota de couro que lhe subiam aos joelhos deveriam de alguma forma manter a carne em uma boa temperatura mas talvez fosse o nervosismo dela que me causava calafrios - tinha de ser isso - conseguia até compreender o motivo, olhando para seu reflexo assustado na vitrine. O reflexo de alguém que nunca tivera de dividir seu corpo com outra consciência.

Ao menos não até agora.

"Se acalme Marinette", pensei encarando seus olhos assustados ajustando a gola do sobretudo, "não vou demorar, prometo, também não vou me aproveitar de você."

"Se aproveitar?", ótimo, o tom assustado ainda estava latente.

"Não se preocupe com isso agora, você era o receptáculo mais próximo e não posso me atrasar."

Os tremores continuavam a correr pelos membros magros mas agora já tinha um controle melhor sobre aquele corpo, sobre os dedos das mãos assim como dos pés, tropeçava menos conforme corria a passos largos.

Durante a noite tudo parecia mais ameno, talvez pela ausência de corpos indo de um lado a outro, talvez pelas luzes amarelas dos postes que iluminavam pontos específicos - o frio apenas acentuava o cenário daquele lugar e o calor da respiração embaçava os óculos de grau que ela usava, algo terrível para se apreciar aquele momento.

Fazer noites frias e secas, com um céu limpo e estrelado eram a minha especialidade caramba! E aquele não era o momento para me preocupar com o estado daquele corpo, ao menos a saúde de Marinette durante as estações frias era uma das melhores que já havia encontrado - e eu estava atrasada.

Atrasada demais.

As luzes do café iluminavam a calçada. Perfeito. Assim como era perfeito ter um corpo que não tinha crises de espirro por causa de mudanças sutis na temperatura.

Cuidar do tempo era simples quando não se tinha um corpo físico para sofrer com as mudanças deste.

Em uma corrida rápida desviei de um carro vermelho e apressado, com um pulo estava de frente a cafeteria - nosso ponto de encontro nos últimos três anos, se eu não tivesse o imprevisto de Suzana ter saído da cidade a passeio próximo ao solstício e ter de procurar por outro receptáculo em cima da hora, tudo seria como sempre foi. E olhando da janela ele não parecia nem um pouco feliz com a minha demora.

O lugar por dentro estava mais aquecido, talvez pelo número de pessoas abarrotando mesas e cadeiras aos balcões. A mesa dele era a única desocupada.

Sem pedidos ainda. Ótimo.

O suor frio de minutos atrás começava a regular novamente a temperatura do corpo dela, tamborilei as unhas de esmalte descascado de uma das mãos pensando no quão preguiçosa Marinette deveria ser para deixar a tintura naquele estado sobre a mesinha redonda, me sentando a frente dele em seguida.

— Olá querido!

Como cumprimento abri e fechei os dedos da mão direita, o sorriso repuxado machucou a pele ressecada dela.

Marinette precisava com urgência de cremes para a pele, principalmente a do rosto.

— Trocou de corpo?

Direto ao ponto, pelo jeito fiz bem em manter a minha saudação automática.

— Suzana saiu de férias e não me avisou, por isso demorei hoje, me desculpe.

Ele ajustou a armação preta do óculos.

— Ao menos agora você vai parar de tirar os óculos dele.

Me lembrei da primeira vez que o vira naquele corpo, minha primeira ação foi tirar os óculos dele, tamanha era a curiosidade que tinha.

Agora me arrependia amargamente de ter feito isso.

— Verdade! Você tem toda a razão, não poder enxergar com nitidez é terrível, nem posso observar essa noite direito.

— Isso é bom, inconsequente.

Bufei enquanto ele rira.

Era difícil fazê-lo rir tão naturalmente.

— Ria o quanto quiser engraçadinho, mas para o bem dela faça dias quentes, por favor.

— Não posso prometer algo que não tenho habilidade.

— Mas pode tentar, não? Marinette gosta de dias quentes.

— Marinette?

Coloquei uma das mãos sobre o peito.

— O nome dela é Marinette.

— Vai ficar com ela?

"Ficar?" A consciência dela pareceu se agitar a ideia mas fiz questão de aplacá-la e acalmar aquele coração agitado. Não poderia perder o controle naquele momento.

— Provavelmente não, ao menos não aqui, ela está de passagem e não vai ficar por muito tempo - ajeitei a armação que insistia em escorregar pelo nariz — mas acabou me ajudando muito hoje.

— Nascidos de março a junho são tão difíceis assim?

— Praticamente impossíveis hoje, mas estou com fome, quero cappuccino e torta de maçã!

— Maçã?

Soltei um "aham" agitando uma das mãos, chamando por alguém que me atendesse.

— Mudou por que?

— São as favoritas dela, e as lembranças me deixaram com água na boca!

Assim que uma garota com um coque grande demais bem no topo da cabeça, usando de um avental marrom apareceu a frente de nossa mesa com um bloquinho de notas cor de creme, fiz meu pedido junto do dele, não dando tempo para que ele intervisse.

— Gostou dela?

Deixei apenas que meu sorriso fizesse o serviço, ele apenas balançou a cabeça.

— Me diga você se gosta dele, espertinho, ficou grudado ao Akira pelos últimos três anos.

Ele cruzou os braços, incomodado.

— Akira gosta da minha presença, por isso fico com ele o ano inteiro.

— E leva o seu mau humor para onde quer que ele vá.

— Cala a boca.

— Não mesmo, você fica me cutucando a toa, me deixa fazer isso com você também.

Os olhos castanhos pareciam contrariados pela borda da armação de acrílico preta, a medida que ele mexia com as mangas largas da blusa listrada.

O cabelo desarrumado caía sobre a vista, ele estava agitado.

— Você fez um bom trabalho esse ano.

Ah, elogios!

Ele era péssimo reconhecendo os outros, inclusive a si mesmo.

— Obrigada, consegui equilibrar melhor a secura com a umidade dessa vez e os ventos estavam ótimos, como nunca antes, mas não tem sido fácil fazer isso todos os anos. Antes eram as colheitas, agora são as pessoas, me pergunto o que será daqui a dez anos.

O nervosismo cedera quando ele cruzara os braços sobre a mesa, recostando a cabeça sobre eles, a armação ficando torta.

— Você fez dias mais quentes também.

Sorri a menção do calor.

— Aprendi com o melhor!

— Você gosta dele tanto assim?

Consegui incomodá-lo só com isso? Ótimo.

— Ele é mais bem humorado do que você, ao menos.

— Então o que quer comigo hoje, Ocaso?

Era sempre tão difícil fazer com que ele entendesse o que o humor significa, principalmente quando menciono o seu oposto. Parecia que o ego inexistente em seu ser surgia com força, pronto para morder quem tivesse ofendido seu nome.

Mas eu detestava quando ele me chamava por esse nome.

— Detesto esse nome.

Naquele momento, antes que ele pudesse retrucar, o nosso pedido chegara em uma bandeja de plástico nas mãos da mesma garota. Dois pratos de sobremesa com um pedaço de torta cada foram postos a nossa frente, acompanhados de uma xícara de cappuccino e outra de chá preto.

Ele encarou a torta, olhando em minha direção.

— O outro pedaço era pra mim?

— Experimenta primeiro, reclama depois.

Enquanto ele continuava a encarar a sobremesa como se fosse algo novo e totalmente inóspito - e ele detestava o novo assim como doces - me voltei para o meu pedido. Geralmente optava por tortas de limão nesses encontros, mas ultimamente as colheitas de maçã estavam mais fartas, resultando em sobremesas deliciosas, como essas tais tortas de maçã. Tão simples mas tão saborosas que poder saboreá-las na minha estação era um grande deleite.

A temperatura ajudava, se não fosse pela menção do "nêmesis" dele, que ao menos agora se dera por vencido e comia da sobremesa eu não teria conseguido esse feito.

O equinócio havia sido bom, ele me dera o que precisava para acertar o equilíbrio do outono e eu só desejava poder passar isso adiante. A energia grandiosa que apenas o verão consegue ministrar - a umidade, a temperatura, tudo devidamente e mesmo no exagero, ainda conseguindo grandes feitos - mas dependendo do humor dele, em uma noite tudo poderia ir abaixo muito facilmente.

Nossa relação sempre fora ruim por sermos menos queridos pelas pessoas, isso sempre nos afetara, ao menos em outros tempos, mas eu gostaria de poder mudar isso, mesmo que por pouco. A torta seria um começo. Não há mau humor que não mude com algo doce, e as papilas gustativas de Akira tinham que ter alguma funcionalidade naquele momento.

Estendi as mãos sobre a mesa, as palmas para cima, dobrando os dedos para chamar a atenção dele.

— Hiems.

Um suspiro, então suas mãos estavam sobre as minhas, a louça de nossos pedidos já comidos no meio de nossos braços.

— Detesto esse nome.

— Eu sei, só queria que você também se sentisse mal como me senti.

— Obrigada, Ocaso.

Respirei fundo, era agora ou nunca.

— Veris me ajudou e eu também quero fazer o mesmo por você - suas mãos apertaram as minhas — E eu sei o quanto você odeia ele mas você gosta de mim, então me escute, não faça desse inverno tão rigoroso. Ao menos tente amenizar o frio durante o dia, por favor, Hiems.

— Você sabe que não é fácil, para ele é mas não para mim.

— Eu sei espertinho, mas você pode tentar, não?

Uma encarada, duas, três, é ele estava mudando de ideia.

— E como vou fazer isso, sendo que eu não sou familiarizado com o calor?

— Primeiro você poderia aproveitar melhor os equinócios, mas como Vere é tão tímida quanto você, eu consegui um meio de te ajudar!

Soltei minhas mãos das dele e peguei o anel de coco que atraíra Marinette até mim, colocando sob a palma direita dele em seguida.

— Gostou da torta?

Ele assentiu olhando o anel.

— E como um anel vai me ajudar?

Dei o meu melhor sorriso.

— A torta é para você se lembrar de como eu faço frutas deliciosas e o anel é para você se lembrar de mim e como consegui um outono fabuloso esse ano!

Ele bufou.

— Convencida.

— É só para você se lembrar de que mesmo sendo indesejado ainda existe importância em você Hiems, sem o outono e o inverno esses corpos ficariam mau acostumados a fartura em excesso. Foi assim antes de me nomearem e vai ser assim até o fim da era deles. E não me olhe assim, Akira gosta de você também.

Ele colocou o anel em um dos dedos e fez o mesmo que eu, pedindo por contato.

Coloquei minhas mãos sobre as dele e apertei.

— É bom não ser mais sozinho, sabia?

— Que bom que a minha ilustre presença te faz bem, mas chegou a minha hora de ceder o meu posto para você, querido.

O corpo dela estava cansado, mas sua consciência voltava a tomar posse, pouco a pouco. Não conseguiria levá-la até onde a havia encontrado.

Por sorte ele pareceu notar isso.

— Não vou conseguir cuidar dela, você pode levá-la para um lugar seguro? - ele sorriu negando com a cabeça — Peça ao Akira que olhe por ela, ao menos por hoje, uma amizade não faria mal a ele.

— Não é você quem decide isso.

— Mas talvez assim ele te mostre uma coisa ou duas sobre dias quentes.

Ele riu, e a risada do inverno era algo fabuloso.

— Que terrível para Marinette ter te encontrado hoje - quando comecei a lutar para me manter presente e ele continuou mais ameno — pode deixar que eu cuido dela, nada de ruim vai acontecer a ela hoje.

Sorri sentindo a pele se repuxar ao gesto, queria poder ter feito algo melhor para a garota, não era do meu feitio me apossar de um corpo e deixá-lo em qualquer lugar depois mas com o fim do outono naquele hemisfério minha capacidade em me fixar ali ficava menor.

Muito, muito menor.

Mas eu tinha um bom amigo ao menos.

— Ótimo. Boa sorte Hiems, e seja gentil com Vere quando o equinócio chegar, ela reclama muito do seu mau humor.

Ele sorrira bastante dessa vez, um ponto para mim.

— Certo, querida.

— Até o próximo ano querido!

Assim minha consciência naquele corpo se esvaíra por completo, o solstício terminara e finalmente era inverno, com as fases da lua o frio provavelmente ficaria ainda mais rigoroso até se estabilizar e eu torcia para que ele se lembrasse do meu pedido.

Claro que um inverno quente é quase uma piada de mal gosto, mas dias de sol não eram de todo ruins.

  • Quando tive a ideia, como ela me veio em primeira pessoa, tentei escrever em primeira pessoa. Algo que detesto profundamente mas, se tenho que mudar meus hábitos começando pelos pequenos detalhes, que sejam estes na escrita também e se ficou ruim, é devido a minha falta de costume em escrever partindo da ótica primária mesmo.
  • Para dar nome as estações escolhi ir na raiz deles optando pelo latim, e em meio essa busca acabei usando dos meus achados para dar um motivo mais concreto para a relação deles.
  • E eu sei que o solstício acontece pela manhã mas gosto das noites de outono e não quis mudar isso por causa do horário, obrigada!
  • Para nota pessoal, esses links me auxiliaram.
  • Enquanto escrevia, também quis dar nomes que remetessem as estações aos receptáculos (pois iria ficar bem legal) mas não fui muito fundo nisso, Akira sendo o único que acabou tendo uma funcionalidade maior visto que 秋 (aki) significa outono, e acabei pensando muito no Natsuki Usami (Tsuritama) enquanto o descrevia. Tsuritama sendo um anime que acaba abordando um pouco dessa "personalidade" das estações, recomendo bastante! Só não consegui encontrar a postagem que a Bruna havia feito sobre no Rua das Begônias, só tinha notado isso graças a ela.

Obrigada por ler!
E nos vemos no equinócio de primavera!

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