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{ oneshot } Protótipos do que costumávamos ser

※ 17 de janeiro de 2025 (8:50 PM) + comentários (0)

  • protótipos do que costumávamos ser
  • lars barriga, padparacha, sadie miller
  • steven universo
  • 4.989 palavras
  • "Chegava a ser redundante viver um ciclo interminável onde seus sentimentos por Sadie pareciam apenas amadurecer e não esmorecer. Ao menos ele tinha tempo de sobra para olhá-los florescer para então murchar e assim um novo ciclo se iniciar."

A cada lufada gelada o corpo de Lars encolhia para dentro das vestimentas pesadas que usava naquela manhã de inverno, seu rosto torcendo para conseguir se embrenhar mais dentro do cachecol de estrelas que ganhara de sua mãe no natal passado. Se ele bem lembrava ela mesma o havia tricotado e ele era longo o suficiente para dar voltas em seu pescoço e ainda cobrir suas orelhas rosadas, uma mão na roda para aquela estação. As pontas de seus dedos reclamavam de serem expostas ao frio enquanto ele abria a confeitaria e olhando para os lados, sua coragem era provavelmente solitária naquela manhã onde somente ele dentre os comerciantes locais, decidira por abrir seu estabelecimento, mas sem aventuras siderais e estando preso na Terra no meio do inverno ele tinha pouco para fazer e se estivesse em casa ele provavelmente estaria subindo pelas paredes logo, melhor ocupar seus dedos em suas próprias receitas para não perder o hábito.

Um suspiro de alívio ganhara vapor ao sair de seus lábios quando a chave dera a segunda volta no tambor.

O cômodo estava gelado mas nem por isso ele se deteve, acendendo as luzes e se despindo de grande parte das roupas pesadas que vestia em seguida as guardando embaixo do balcão. Respirou fundo e olhou ao seu redor. Observar aquele lugar na primeira hora do dia era uma de suas visões favoritas, só perdendo para o espaço de dentro de sua espaçonave mas não deixando de ser especial em nenhum momento, ele amava a sua confeitaria sem sombra de dúvidas, por isso pegara a vassoura escondida no canto mais escuro e passara a tirar as impurezas do piso, passando pelo balcão e mostruário em seguida e só depois disso se voltara para a cozinha ao fundo, conferindo seu estoque e o que estaria disposto a fazer naquela manhã gelada.

Ele chegara cedo então tinha tempo de sobra para divagar na cozinha, em suas receitas, olhando por aquelas que saíam com mais frequência e se permitindo arriscar em novidades.

Fora assim que seus dedos pararam naquele rocambole e lembranças passaram a flutuar em sua cabeça.

Lembranças nada agradáveis.

Lembranças que fatidicamente o lembravam de Sadie em um péssimo momento e de que eles não se viam a muitos meses, com uma boa ênfase no muito.

Não que ele se importasse com isso.

Sadie Miller tinha sua própria vida como artista e ele estava feliz por isso. Por ela. Ponto final.

Então ele fizera aquele rocambole novamente, tentando afogar essas lembranças junto da massa e queimá-las quando a pôs no forno.

Horas mais tarde a placa que indicava que a confeitaria estava aberta fora virada e de hora em hora uma pessoa aparecia contente por ter algo doce para poder comer naquele terrível dia de inverno, assim como gems passavam para cumprimentá-lo e para aquele dia em especial, as vendas não estavam em um todo sendo ruins, tendo em vista o movimento de clientes e curiosos, aquele estoque que fizera mais cedo acabaria com o fim do expediente. O que acabara sendo um grande alívio para seus dedos nervosos.

E enquanto esperava por clientes debruçado sobre o balcão branco polido, seus dedos cor de rosa tamborilando sobre ele e sua mente sempre tão inquieta se permitira divagar um pouco. Indo dos sentimentos aflorados da manhã indo a taciturna sobriedade daquele período do dia. Ainda era cedo para o almoço e ele pouco sentia fome. Desde que se tornara cor de rosa ele percebera mudanças nada sutis em seu corpo e a fome era uma delas ou a melhor dizendo, a falta de fome. As vezes ele pensava se era assim que as plantas se sentiam sendo em boa parte nutridas pelo sol, mas gems não eram assim, ao menos fora o que as Rutilo lhe contaram certa vez quando comentara seu novo estado numa noite em que não conseguira dormir.

O humor de Lars melhorara consideravelmente assim que Paddy adentrara pela porta, a sineta ao topo desta sinalizando a presença de sua amiga e companheira de gangue.

— O que faz aqui Paddy, pensei que fosse ficar com as outras nessa temporada.

O sorriso que sempre se mantinha imutável no rosto da gem continuara ali, enquanto ela falava.

— Quis ver como você tem estado capitão e as outras também, por isso estou aqui.

— Como é bom ser querido.

E ele não mentira em nenhuma palavra dita naquela frase. Em anos ele nunca conseguira simplesmente aceitar a afeição que recebia de forma tão natural, era sempre uma sensação de estar se forçando a algo ao invés de simplesmente abraçar o sentimento caloroso que se espalhava em seu peito quando uma palavra bonita era dirigida a ele, especialmente ele, Laramie Barriga, aquele que sempre desdenhara de gestos de afeto e mesmo depois de toda a sua metamorfose cor de rosa ainda lhe era estranho se ver desse jeito contudo Padparacha, em sua constante lentidão para captar sentidos literais levou alguns segundos, mas acabara rindo das palavras dele.

— Eu gosto de ficar na Terra, só não imaginava como o clima dela poderia ser tão hostil.

— Isso é porque ainda não nevou Paddy, quando neva fica ainda pior.

Ambos olhavam para além das portas de vidro.

— Foi por isso que quis ficar esse ano?

Um arrepio correra por seu corpo rosado, o lembrando do motivo por trás dele optar pelo espaço durante o inverno.

— É exatamente por isso.

Existiam coisas que se não fossem vividas o suficiente poderiam ser facilmente esquecidas, tal como uma fórmula importante para cálculos matemáticos em uma prova assim como se colocar a prova para se lembrar de tê-la esquecido e, desde que seu corpo se tornara cor de rosa, Lars notara sutis mudanças nele. Mudanças que lhe causavam vertigem somente de pensar no que elas poderiam implicar em um futuro próximo e por temer se esquecer de sensações mundanas tal como a do frio do inverno em Beach City, ele decidira por se forçar a alguns eventos adversos como a mudança das estações e por conta disso, sua vida acabara por se tornar uma grande série de experimentações. Em Terra ou no espaço. Seu novo corpo possuía capacidades diferentes de outrora, ele enfim reconhecera e, por mais que algumas mudanças fossem muito interessantes outras o faziam perder parte do sentido que era ser humano, ou de quando ele fora mais humano do que era naquele momento.

E diferente das gems com quem convivia ele ainda sentia frio. De uma forma diferente mas nem por isso menos incômoda.

E ao menos esse detalhe, era algo que o aliviava.

O leão de Steven parecia pouco se incomodar com a breve mudança no ar mas seu corpo parecia estar sendo pinicado por pequenas agulhas sempre que um vento mais forte passava por ele. Arrepios e mais arrepios. O frio no litoral era realmente terrível e provavelmente ele era a única exceção a regra gem de que gems não eram abaladas por meras estações terráqueas e por já ter sido Lars o Humano e seu corpo se recusar a aceitar por completo o upgrade que recebera ao ter se tornado cor de rosa. Essa e outras novidades eram o que ele vinha tentando decifrar nos últimos meses. Tudo era tão recente, tão novo, que por vezes ele se sentia culpado por preferir estar no espaço sideral.

Ao menos estando lá, todas essas pequenas novidades não eram realmente novas. Eram apenas a norma. Mais do mesmo.

Ao menos as off colors estavam dispostas a apoiá-lo em seus experimentos.

— Eu não gostei do inverno, ele é tão sem graça. Sério que a neve deixa tudo mais divertido?

— Divertido e gelado.

— Se é o que você diz capitão Lars...

Ele se agachara para ficar do tamanho de sua amiga.

— Se não gostarem a gente volta a evitar o inverno no espaço, tudo bem?

As mãos de Padparacha encontraram seus cotovelos em um gesto pouco convencido, que fora desmentido por sua voz alegre.

— Tudo bem!

E segundos depois a porta se abrira para que uma figura tão abarrotada de agasalhos quanto ele naquela manhã passasse por ela, acompanhada de um gelo tamanho que o fizera esfregar os braços cobertos por uma blusa de malha fina.

Sua saudação morrera na garganta quando a figura se apresentara e Paddy juntara sua mãos como de costume por conta de uma de suas visões atrasadas.

— Sadie, a humana!

Sadie por sua vez emitira um ganido em resposta, surpresa por ver a gem ali, bagunçando seu cabelo agora curto e mais verde que da última vez.

— Oi Sads.

Ela acenou.

— Oi Lars.

Lars convidara Padparacha para que ficasse com ele atrás do balcão, voltando sua atenção para a velha amiga em seguida, que ignorava seu olhar se dispondo a observar os doces a mostra. Os dedos batendo constantemente sobre o vidro e essa constância parecendo ter um pouco de ritmo conforme se repetia.

E desde que se cumprimentaram um silêncio nada agradável se instalara.

E ali, ele percebera que não era um grande entusiasta do silêncio. Ao menos não ali. Não com Sadie.

— O que te trouxe 'pra cidade dessa vez?

— Eu poderia te perguntar a mesma coisa. Você é um dos únicos abertos hoje, sabia?

Um pouco de humor subira aos sentidos dele.

— Me diga uma novidade! Quem vai querer ficar congelando sem freguês?

E por sorte talvez, ela rira. Um sorriso se prolongando no rosto.

— Mas sério, por que ficou justo no inverno?

— Por causa do inverno.

O ritmo cessara sobre o vidro.

Os olhos sem o mesmo brilho de anos atrás se voltaram para ele, finalmente lhe dando a devida atenção naquela conversa.

— Sério?

— Sério.

— E por que?

Ele olhou seus dedos que mais pareciam terem sido mergulhados em corante cor de rosa.

— Porque tem algumas coisas que eu quero lembrar para não esquecer.

Os olhos de Sadie se voltaram para a vitrine colorida.

— Tipo esse rocambole aqui?

Seu corpo de encolhera mas não devido ao frio.

— É, e você não respondeu a minha pergunta Sads.

Ela deu de ombros, olhando para a praça deserta.

— Voltei antes do inverno e resolvi ficar. Senti saudades de Beach City durante a estação e da minha mãe também, o que já é enfadonho o suficiente.

— E como vocês duas estão?

— Bem melhor do que antes, talvez a distância tenha ajudado a gente a se entender melhor.

E até que aquela conversa não estava sendo de todo ruim. Para duas pessoas que não se viam a meses era algo até que bom, mesmo com Paddy soltando pequenos cochichos sobre algo estar estranho com Sadie, o que ele ignorou propositalmente e sorte a dele que a gem aprendera a ser mais sutil com suas visões atrasadas.

— E você Lars, como tem estado com os seus pais? Você tem ficado na casa deles, certo?

Ele assentiu, mas quando notou que manear com a cabeça não respondia uma das perguntas, continuou.

— A gente tem se dado bem até, descobri que gosto de conversar com eles.

— Isso é bom.

— Se é, mas e aí, vai ficar encarando meus doces sem escolher nenhum até quando?

— Até você ser sincero comigo, idiota - sussurrou e depois acrescentou em um tom mais alto — o rocambole.

Por um breve segundo, o cérebro de Lars parara com suas atividades automáticas, se reiniciando tão rapidamente quanto após processar que Sadie havia acabado de pedir.

Uma de suas mãos ainda segurava a portinha de correr da estufa, sem tê-la aberto.

É, talvez ter feito aquele rocambole tenha sido um sinal mais adiantado que as visões de Paddy sobre o passado, como se ele soubesse que alguém que nunca o havia provado viria em sua procura.

Depois de embalá-lo e cobrar pelo preço do produto, o colocando em uma sacola de papel marrom algo o deteve antes de entregar o doce a Sadie, talvez fosse pela careta que ela tinha no rosto ao olhá-lo ou por sua mão ter esbarrado sobre a dela no meio do caminho, ele não conseguira realmente encontrar um motivo válido.

Por sorte, ela acabara por dar a ele um ao final.

— Quer ir em casa mais tarde? Sabe, para fazer uma maratona de filmes de terror ruins? Eu convidei o resto do pessoal também se quiser levar as meninas não tem problema, é só uma reunião de amigos.

— Eu passo.

Sadie pareceu pega de surpresa.

— Sério?

— Sério Sadie, se eu levar as meninas não vai ter espaço pra ninguém no seu quarto! O que acha de fazermos essa reunião lá em casa? Tem mais espaço.

Um sorriso cansado surgira no rosto dela.

— Seria ótimo Lars, que horas você fecha hoje? Assim eu já deixo todos avisados e a gente se encontra lá.

— Com esse tempo antes das seis eu volto pra casa.

— Ótimo, então eu te vejo as seis garoto do espaço!

— Até lá estrela do rock!

Ela soltou um risinho pegando a sacola e indo em direção a porta, acenando para ele antes de sair.

— A Sadie não está bem Lars.

— Me diga quem consegue estar com esse frio, Paddy.

Se a enorme franja não cobrisse seu único olho, ele tinha certeza de que a gem sempre doce e alheia a sua realidade estaria séria, ao menos era essa a impressão que sua voz causava.

— Não é sobre isso isso, ela realmente não está bem. Eu pude ver isso várias vezes enquanto ela esteve aqui, conversando com você, parece que algo deu errado e por esse motivo ela voltou para Beach City.

Lars batera com a testa sobre o balcão, escorregando até se sentar sobre o piso, tendo a gem ao seu lado.

— E resolveu reunir a todos justo numa noite de inverno? Minha nossa o mau gosto dela só piora!

Paddy cutucara seu joelho, a franja cobrindo seu olho a impedindo de manter contato visual com ele.

— Mas nós vamos ver esses filmes de terror ruins, certo?

— Claro e a sua missão é avisar as outras, tudo bem? Você não vai se esquecer disso?

Ela cutucara seu joelho.

— Não vou me esquecer capitão!

— Ótimo, então vá e avise elas por mim.

E como se respirar fosse fácil novamente, assim que a figura da gem alaranjada passou pela porta de vidro, se diluindo no cenário acinzentado, Lars conseguira finalmente inspirar uma porção revigorante de ar que preenchera seus pulmões adequadamente e acelerara seu coração a medida que respirava de maneira copiosa, ele nem notara que deixara de respirar durante a estranha troca de palavras e agora, sentia como se tivesse corrido uma longa maratona.

Outro novo detalhe sobre seu corpo cor de rosa. As vezes ele se esquecia de respirar.

Mas esse novo detalhe não invalidava o desarranjo de pensamentos que lhe vinham a mente a cada vez que respirava. Sadie o convidara para uma noite de filmes como nos velhos tempos. Ponto. E se Padparacha estivesse realmente certa, ela também não estava em seu melhor estado logo... reavivar os velhos tempos não parecia algo que ela faria em qualquer estado emocional em que pudesse estar... sempre fora Sadie e olhar o copo meio cheio, a ouvir as pessoas e tolerar suas maluquices, a não agir de maneira desesperada...

Se bem que dentre os dois ele facilmente se destacaria como o mais desesperado, isso em um passado nem tão distante. E pensar nisso o fizera sorrir um pouco naquele dia frio.

É mesmo.

Ainda estava frio.

E lhe era estranho ondular tão facilmente entre a gélida realidade de sua loja de doces para com seus próprios pensamentos copiosos depois de ter conversado brevemente com Sadie. As palavras de Padparacha ganhando um peso considerável na balança que se instaurara dentro de sua cabeça.

O que poderia ter dado tão errado para que ela quisesse voltar para Beach City?

De lado de fora o cinza se tornara mais cinza e alguém acabara de passar pela porta o tirando parcialmente de sua preocupação.

Mas não completamente.

E depois dele vieram mais dois e mais três e assim, as horas passaram enquanto ele tinha um pé em lembranças e o outro em sua loja.


Sua mãe lhe sorrira calorosamente quando soube das visitas que teriam naquela noite fria de inverno, correndo pela cozinha enquanto dizia em voz alta para que ele pudesse ouvir as opções do que eles poderiam fazer para o jantar ao que ele comentou que muito provavelmente Jenny traria pizza e ela parara suas receitas para rir e concordar com ele.

No fim os dois acabaram fazendo doces de sobremesa e algo quente para aquecer a noite e quando a campainha tocara, o aroma preenchia o ambiente.

Risos e abraços e palavras eram trocadas enquanto os corpos se acomodavam na larga sala de estar, a mesinha de centro com duas caixas de pizza abertas enquanto as outras se amontoavam na cozinha e o grupo se reunia em frente a larga tevê que, com as graças de Sadie, começa a fazer o clima arrepiante ganhar forma. Lars sorrira ao notar que os pais também se embrenharam na maratona, acompanhando os jovens.

As off colors se acomodaram próximas aos caras legais de outrora, atentas ao televisor.

Parecia como uma memória passada, só que muito mais agradável para ele.


Quando todos já estavam dormindo e a estática do televisor anunciava o fim de mais um filme, Sadie se dispôs a desligá-lo, encerrando assim a maratona de filmes enquanto que ele, munido de um grosso cobertor se levantava, indicando as escadas até seu quarto.

E ela o seguiu.

Seus pés não pareciam mais se importar com os degraus de madeira, que ao menos durante o inverno conseguiam ser bem mais úteis que bonitos, sua cabeça indo longe com os acontecimentos da noite. O vento poderia açoitar o quanto quisesse as janelas, causando sons horríveis de serem ouvidos, mas ele já não se intimidava com o mesmo ao vê-la alcançando seu passo e se embrenhando por debaixo do cobertor dele.

Ugh, hoje está realmente frio.

— E você resolveu sair de casa mesmo assim.

— Ah, fala sério! Foi uma boa ideia!

— Claro, para quem quer ficar doente no dia seguinte. Uma ótima ideia Sads.

Eles chegaram ao cômodo.

E ao menos agora, Lars se importava em deixar seu quarto arrumado sempre que levantava da cama.

Sadie puxara o cobertor em direção a varanda que mesmo fechada, ainda mostrava a cidade do lado de fora.

— Você tá bem mesmo Sadie?

Ela suspirou, se sentando no chão.

— Não, e não tenho estado a um bom tempo. Com ênfase no bom.

Ele se acomodara ao seu lado, cruzando as pernas e arrumando o cobertor sobre os dois.

— Por isso voltou pra cidade?

Apenas um aceno de cabeça.

— E por que apareceu na loja hoje?

— Acho que uma parte de mim queria te ver, a mesma parte que quis se reunir a todos essa noite.

— Mesmo não sabendo se eu estaria lá?

— Exatamente por não saber... sabe eu tinha pensado em mudar de ideia caso você não estivesse na cidade... eu realmente queria que você fizesse parte dessa reunião, eu realmente queria que todos estivessem juntos mais uma vez... o que é ridículo vindo de mim.

— Não Sads, isso é ridículo vindo de mim.

Ela sorriu, se cobrindo mais.

— É, é verdade.

— E por que voltou, você vai ficar dessa vez?

— Não, ao menos é o que eu acho e pela animação dos outros, provavelmente não por muito tempo é só que tudo começou a fazer menos sentido conforme eu ia mais longe. Conhecer pessoas diferentes, cantar para públicos cada vez maiores e comigo estando sozinha no palco, eu comecei a me sentir incrivelmente pequena e isso me fez lembrar de como eu era antes. Me fez lembrar de você também.

— Ser artista deve ser mais trabalhoso do que parece.

— E é, ainda mais para os pouco reconhecidos.

— E você se lembrou de mim logo quando se sentia o mais miserável possível?

— Acho que pela primeira vez entendi como você se sentia de verdade Lars. Talvez seja pela nossa criação. Nós nunca tivemos os mesmos desafios que os nossos pais tiveram na nossa idade e talvez essa falta se mostre desse jeito na gente... nessa insegurança...

Ele concordou com um aceno de cabeça. De repente tudo o que ele detestava nos pais parecera ganhar uma luz diferente agora depois de velho.

— Nessa covardia. Se bem que comigo eu só era um insensível egocêntrico mesmo, alguém que fazia pouco dos amigos que tinha. Principalmente de você.

Um riso sem humor algum viera dela.

— Que bom que reconhece isso.

Se fosse algo realmente bom ele não teria de reconhecer seu real valor tão tarde, mas Sadie parecia não estar atenta o suficiente aos pensamentos dele, imersa demais nos seus próprios.

— É tão estranho pensar que você teve que ir para o espaço e eu ficar aqui sozinha para que finalmente fizesse algo por mim mesma - seus olhares se encontraram, a atenção dele totalmente sobre ela — e que se nada disso tivesse acontecido eu provavelmente não teria mudado. Eu teria ficado, insistido mais.

— Por minha causa?

— É o que uma mulher com sentimentos faz por aquele que ama ou algo assim, tenho lido romances demais ultimamente.

— E você ainda me ama Sadie?

Ela deu de ombros.

— Sempre que vejo você o sentimento não muda, infelizmente gosto da sua presença.

E ele sorriu.

— Vou encarar isso como um elogio.

— Acho que você nunca supera o seu primeiro amor, isso foi algo que notei nesses romances, você tenta reprisá-lo nos próximos de uma maneira muito obsessiva o que por si só é de um péssimo gosto mas... acho que o sentimento é forte demais pra ser simplesmente superado.

O ar parecera lhe escapar os pulmões quando ela terminara de falar e por algum motivo sua visão se tornara um belo cristal aguado, quando seus dedos inconscientemente buscaram afagar os cabelos de Sadie, a deixando petrificada por alguns segundos até que ela relaxasse e recostasse a cabeça em seu ombro.

Sua mão a abraçando em seguida.

— Você sabe que isso só vai me deixar mais convencido, né?

O corpo de Sadie estremecera em uma risada sem muita emoção.

— É a maior verdade que tenho.

O vento frio voltava a açoitar a janela da varanda do quarto de Lars, o lembrando da realidade quando sua mente começava a fantasiar momentos passados e coloridos e quentes, de quando ele resolvera ceder ao seu coração por inteiro e entregá-lo a Sadie esperando que ela o tratasse como ele deveria ser tratado e acabar percebendo de uma maneira muito dura de como o amor nem sempre conquista tudo.

Ao menos não com eles.

Não com Laramie Barriga e Sadie Miller.

E ele se odiava muito por isso, pois seu coração amava Sadie desesperadamente, assim como não conseguia segurá-la por muito tempo.

Lars também tinha o espaço e a cor rosa em sua pele para lembrá-lo de outro detalhe que pesara sobre seu consciente quando saía com Sadie nas noites de verão onde as estrelas brilhavam na água do mar, e se tornava iminente sempre que ela comentava sobre os planos que tinha fazendo questão de incluí-lo neles. Seu peito se apertava quando lembrava de que ele provavelmente viveria muito mais do que ela e de que, por mais inútil que fosse sofrer por antecipação, ele não conseguia olhar para ela do mesmo jeito. Não com essa máxima.

O leão de Steven já havia ultrapassado o tempo de vida de um leão comum, ele se lembrava de ter escutado Pérola comentando isso com Connie então ele... com ele seria o mesmo, não?

Garnet não lhe dera uma conclusão definitiva e quando perguntara a Steven sobre o assunto ele dissera não saber como os poderes que ele herdara da mãe funcionavam e ter como base um leão realmente não o ajudara muito naquele momento passado. Por isso o fim.

Por isso ele forçara o fim logo nos primeiros meses.

A companhia de Sadie era a nostalgia de quando ele ainda era um humano completo e ele não conseguia viver como parte disso quando tão pouco sabia sobre o seu corpo cor de rosa.

— Eu estive tão triste Lars. Tão irritada.

Ele segurou com um pouco mais de força o corpo dela, tentado assim se aterrar no presente.

— Eu também. Sempre que me sentia assim escutava aquela música que você fez.

— Você nunca me disse o que achou dela.

— É boa, ótima na verdade.

— Obrigada.

— Eu amo você Sads.

A respiração dela falhara, ele pode ouvir, e então o corpo começara a tremer e ela se encolhera em seu abraço.

Sadie estava chorando. Muito.

E por mais que ele quisesse respeitá-la, sua curiosidade fora maior quando mudara de posição a trazendo para seu colo assim podendo vê-la fragilizada, agarrada ao torso dele como um bebê busca refúgio na mãe.

Talvez ela realmente precisasse chorar.

Ele também chorara quando percebera friamente que viveria muito mais que os pais, os amigos, as off colors sendo o seu maior refúgio quando a realidade parecia forte demais para ser enfrentada.

Mas com Sadie era diferente, a dor era outra, uma que ele pouco tocava se fosse para ser honesto com ele próprio.

E vê-la naquele estado o lembrou disso.

— Desculpa, eu não devia ter dito isso.

— Não. Não Lars eu, eu realmente precisava ouvir isso.

Os olhos dela estavam vermelhos demais e sua blusa com certeza estava úmida demais também.

Era difícil imaginar que ela fosse capaz de esboçar emoções como aquela mas ele já vira muitas outras facetas de Sadie e aquela com certeza era uma das que ele menos gostava de ver. A última vez que eles estiveram tão próximos assim ela guardara as lágrimas para que ele não a visse desse jeito, mas ele não. Não ele.

Ao menos no fim ele se permitira chorar.

Para que ali ele pudesse ser forte.

Por ela.

Por Sadie.

As emoções que sentira pela manhã pareceram mais válidas naquela madrugada gelada onde o corpo dela era quente o suficiente para confortá-lo.

— Não me deixe de novo Lars por favor, não faça isso comigo de novo.

— Tudo bem.

Um suspiro.

Com o passar dos minutos o corpo de Sadie pesara sobre o dele, ela havia caído no sono e ele se questionava se realmente estava tudo bem. Do lado de fora neve começava a cair levemente sobre Beach City tingindo assim a paisagem da cidade de branco imaculado, ignorando a ventania de horas atrás.

Seu coração parecia leve entre as lentas batidas e assim, ele se permitira chorar novamente.

É, realmente estava tudo bem.

Ao menos por hora.


Sadie não se lembrava de ter caído no sono, ao menos não na cama de Lars e definitivamente não com tendo ele como travesseiro, mas seus olhos se permitiram vislumbrar o rosto rosado dele enquanto dormia. O cabelo parecia algodão doce sendo suave ao toque e aproximando a orelha de seu peito ela ainda podia notar as baixas batidas do coração dele, coisa que a assustara no início de tudo.

O início...

De repente sua cabeça voltara a doer e ela entendera como caíra no sono. Céus, que vergonha! Por sorte seu estômago a livrara de morrer no constrangimento quando clamara por combustível e ela se viu se desvencilhando do corpo rosado e descendo as escadas com uma manta colorida nos ombros, observando o grupo de amigos a cada leva de degraus abaixo, ainda dormindo mesmo com a claridade da manhã escapando pelas cortinas - uns no sofá, outros na poltrona e alguns aninhados ao corpo de Fluorita - mas todos pareciam confortáveis demais para se importar com o inicio do dia.

Todos exceto a mãe de Lars que cantarolava da cozinha.

Ela lhe sorriu quando entrou no cômodo.

— É bom vê-la aqui novamente Sadie!

— Bom dia pra você também Martha.

Uma caneca quente fora colocada a sua frente quando se sentou a mesa e as opções do que comer eram variadas demais para a sua atenção sonolenta mas o olhar de Martha sobre ela lhe dizia algo a mais.

— Vocês conversaram?

— Acho que sim.

— E se resolveram?

Ela escolheu um bolo com gotas de chocolate e o mordiscou um pouco, o doce lhe trazendo um sorriso ao rosto.

— Talvez.

— Nós conversamos sobre muita coisa ultimamente mas quando o assunto é você ele sempre se resguarda. Não quero me intrometer mas sempre pensei que vocês deveriam ser mais claros sobre o que querem para vocês dois, assim como o que queriam como um casal mas Laramie é tão teimoso como o pai então seria melhor ele pensar nisso sozinho, por isso fiquei feliz em vê-la aqui ontem a noite. E agora pela manhã.

Seria muito bom se a mãe dela pensasse desse jeito, ela adoraria ter alguém assim por perto para conversar.

— É, você está certa.

— Mas ele não consegue esconder o que sente por você, mesmo tentando muito.

As duas se olharam e por trás das lentes do óculos redondo que ela usava Sadie pode ver uma compreensão que somente uma mãe teria sobre um filho, que fora quebrada com uma xícara de café que ela bebera observando algo além dela.

— E bom dia para você também, meu raio de sol!

— Bom dia mãe, bom dia Sads.

A coluna de Sadie enrijecera ao escutar a voz dele logo pela manhã e mal conseguiu se virar para vê-lo quando sentiu seu dorso sendo abraçado por ele, a cabeça de Lars em seu ombro lhe dando um beijo na bochecha para se sentar ao lado dela, se debruçando sobre a mesa.

Seus olhos não deixando ela desviar o olhar por muito tempo.

Ele ainda estava com sono.

— Quer passar o dia aqui em casa? Pela previsão tem muita neve pra vocês voltarem sem o carro da Jenny enguiçar.

— Tudo bem, eu acho.

— Que bom.

— É, que bom.

Outra caneca fora colocada sobre a mesa enquanto Martha murmurava o que poderia fazer para o almoço, tendo em vista a quantidade de convidados que teria para o dia.

Olá, quero dizer que reinaugurar as minhas produções tem sido muito cansativo. Cansativo demais pois estou colocando nelas todas as dores que vinham me afligindo nos últimos meses e revisitá-las me dá muita dor de cabeça, por isso enrolo e acabo me frustrando por tabela mas bem, aqui está! A primeira parte, um dos rascunhos que veio bem do nada quando pensei em explorar a cor rosa do Lars e coloquei uma música do Green Day pra dar sentido. A dividi em dois núcleos e teria uma confraternização maior na maratona de filmes se eu me desse o trabalho de escrever (uma ideia era colocar o Steven em cena) mas preferi deixar esse cenário só na minha cabeça mesmo. Obrigada pela leitura!

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※ o pseudo clube de artes da snow
Sinta-se bem vindo ao Doukyuusei, um clube de artes cibernético que de arte só tem o entusiasmo mesmo pois se encontra abarrotado de poesia, ruminações sobre a vida e universo, análises altamente emocionadas sobre títulos de momentos passados e romance barato para a graça de sua autora que gosta de passar o tempo livre dormindo e acumulando rascunhos no bloco de notas, tal como músicas velhas de CityPop na playlist.
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